Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006

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As malas quase prontas pra viagem, natal em família a vista, com uma parada estratégica de um diazinho, um só, em Mauá, pra lagartixar e amenizar o calor infernal que anda fazendo na cidade maravilhosa. Quando entro na sala me deparo com a porta da geladeira escancarada. Julio com uma faca na mão golpeia o congelador da Hotpoint anos 50, xodó da casa, mais do que um móvel.

- Julio, o que você tá fazendo?

- Degelando a geladeira.

- Agora? E assim?

- É rápido. Enquanto você termina de arrumar as malas eu arranco esse gelo daqui. Não demora nada. Já fiz muito isso, não dá pra esperar ela degelar sozinha.

- Mas, Julio, é muito gelo, vai demorar muito. E outra, não é bom ficar batendo assim no congelador, pode quebrar alguma coisa.

- Não quebra nada, não. Essa geladeira tem uns 60 anos e não faz um barulhinho, aguenta muito mais do que essas novas. Já fiz isso, acredita em mim, vou degelar pelo menos um pouco dela, só pra liberar o termostato.

Continuou batendo na crosta de gelo que tinha se formado em volta da caixinha que, nos anos 50, eles chamavam de congelador.

- Você tem um martelo? - Me olhou, cúmplice - Vai dizer que você nunca fez isso?

Quem nunca fez? Ri, enquanto abria a caixa de ferramentas e pegava o martelo mais leve. Entreguei a ele, observei rapidinho a pancadaria e o gelo voando pela sala inteira, mas tinha malas pra terminar.

Com as malas prontas voltei pra sala. Ele ainda lá, esculpindo a caixinha de metal. O chão de taco inundado. Concordou que era hora de parar:

- Já livrei o termostato, olha. - e me mostrou a tampinha já aberta e o botão redondinho branco lá dentro. - Deixa só eu limpar um pouquinho em volta do fio do termostato e aí eu paro.

Com um pano eu sequei o chão enquanto ele desentortava a faca anos 70, presente de casamento que meus pais receberam e nunca tiveram coragem de usar pelo design arrojado demais e a cor, laranja-avermelhado, forte demais.

Porta aberta, janelas fechadas, malas no corredor. Chamamos o elevador e finalmente trancamos a porta, sem imaginar que deixávamos pra volta uma geladeira morta, comidas azedas e água pelo chão, frutos do encontro dos anos 50 com os 70.

20 anos se esbarrando num fiozinho...

Escrito por Lili em 18:40:43 | Link permanente | Comments (4) |
Comentário
1 - Ah esses homens na cozinha, sempre fazendo bobagem.
:) (Comentar)

Escrito por: Osimar Medeiros em 2006/12/30 - 00:33:44
2 - Putz, o cara esculpiu a geladeira. Parla!!!! (Comentar)

Escrito por: Ronzi em 2007/01/02 - 13:47:37
3 - Ah, minha mãe tinha uma assim, e eu tinha de limpá-la toda semana. E era na base da faca e martelo mesmo, he he, pra derrubar os icebergs, he he.
Um ótimo 2007 pra vocês!
beijo, menina (Comentar)

Escrito por: denise em 2007/01/05 - 21:20:32
4 - Adoro teu jeito de escrever, aqui em particular me identifico com a crônica. (Comentar)

Escrito por: Marcelo Soares em 2007/01/18 - 18:39:42