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As malas quase prontas pra viagem, natal em família a vista, com uma parada estratégica de um diazinho, um só, em Mauá, pra lagartixar e amenizar o calor infernal que anda fazendo na cidade maravilhosa. Quando entro na sala me deparo com a porta da geladeira escancarada. Julio com uma faca na mão golpeia o congelador da Hotpoint anos 50, xodó da casa, mais do que um móvel.
- Julio, o que você tá fazendo?
- Degelando a geladeira.
- Agora? E assim?
- É rápido. Enquanto você termina de arrumar as malas eu arranco esse gelo daqui. Não demora nada. Já fiz muito isso, não dá pra esperar ela degelar sozinha.
- Mas, Julio, é muito gelo, vai demorar muito. E outra, não é bom ficar batendo assim no congelador, pode quebrar alguma coisa.
- Não quebra nada, não. Essa geladeira tem uns 60 anos e não faz um barulhinho, aguenta muito mais do que essas novas. Já fiz isso, acredita em mim, vou degelar pelo menos um pouco dela, só pra liberar o termostato.
Continuou batendo na crosta de gelo que tinha se formado em volta da caixinha que, nos anos 50, eles chamavam de congelador.
- Você tem um martelo? - Me olhou, cúmplice - Vai dizer que você nunca fez isso?
Quem nunca fez? Ri, enquanto abria a caixa de ferramentas e pegava o martelo mais leve. Entreguei a ele, observei rapidinho a pancadaria e o gelo voando pela sala inteira, mas tinha malas pra terminar.
Com as malas prontas voltei pra sala. Ele ainda lá, esculpindo a caixinha de metal. O chão de taco inundado. Concordou que era hora de parar:
- Já livrei o termostato, olha. - e me mostrou a tampinha já aberta e o botão redondinho branco lá dentro. - Deixa só eu limpar um pouquinho em volta do fio do termostato e aí eu paro.
Com um pano eu sequei o chão enquanto ele desentortava a faca anos 70, presente de casamento que meus pais receberam e nunca tiveram coragem de usar pelo design arrojado demais e a cor, laranja-avermelhado, forte demais.
Porta aberta, janelas fechadas, malas no corredor. Chamamos o elevador e finalmente trancamos a porta, sem imaginar que deixávamos pra volta uma geladeira morta, comidas azedas e água pelo chão, frutos do encontro dos anos 50 com os 70.
20 anos se esbarrando num fiozinho...


:) (Comentar)
Um ótimo 2007 pra vocês!
beijo, menina (Comentar)