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E o rapaz falava e falava e falava. O ônibus todo ouvia, porque aparentemente ele fazia questão que fosse assim. Ele falando e todo mundo ouvindo. O verdadeiro ouvinte dele, outro rapaz no banco da frente, concordava a maior parte das vezes e, em algumas outra, fazia perguntas. E então o rapaz falava e falava e falava. Mas o que surpreendia é que ele não falava de música nem de futebol nem de mulher ou qualquer outra coisa nessa linha futilidades-que-todo-mundo-conversa. Ele falava de política e de história e de sociologia. Ele falava do Brasil de hoje e do de ontem. Mas não falava daquela forma engajada, levantando bandeiras, intelectualmente arrogante ou desvirtuado. Ele falava como todo mundo fala, como se estivesse falando de paçoca, assim, como quem não quer convencer: quer apenas entender. E o povo todo no ônibus ouvindo o rapaz com cara de quem acabou de sair de um trabalho estafante de dia inteiro, falando de coisas importantes, jogando papo fora. Então ninguém soltou um shhh nem mandou ele ficar quieto nem discordou dele. Ele não tava pregando nada, não tava vendendo nada, não tava enchendo saco. Ele tava dando uma demostração clara de cidadania. E todo mundo ficou feliz com aquilo, se sentindo um pouquinho mais brasileiro.