Tuesday, December 13, 2005

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O cinema brasileiro tem um lapso: não universaliza seus conflitos. Pelo seguinte: todo mundo sofre, todo mundo é feliz, em qualquer lugar do mundo e é por isso que alguns filmes são eternizados, porque eles conseguem tocar todo tipo de gente, que se identifica com o conflito e não com a situação. “Dois Filhos de Francisco” consegue isso. Mas a maior parte dos filmes brasileiros não. Fica aquela coisa meio “Nouvelle Vague” sem desfecho. Porque não é um problema de não ter fim na história, “Antes do Pôr-do-Sol”também não tem fim, mas tem desfecho. A questão é que o cinema brasileiro é muito “umbigado”, por assim dizer…

É isso que acontece com os dois filmes brasileiros que vi no último sábado:

Cinema, Aspirinas e Urubus“, de Marcelo Gomes.

O filme já começa diferente: é outra época (1942) e essa “outra época” é bem representada no tom sépia da imagem. É como se virássemos páginas de um álbum de retratos da vida daquelas pessoas, perdidas (ou não) no interior do Brasil. Ou seja, tecnicamente é lindo. A direção de arte, detalhista e caprichada, encanta. As interpretações, a preparação, a direção, a iluminação (inclusive para as cenas noturnas), tudo. Lindo. Mas tem um furo no roteiro…

Não que haja erros históricos (sinceramente, não prestei atenção a tal extremo), não que os diálogos sejam fracos ou que os personagens sejam vazios. Nada disso. Isso tudo é bem pensado. O problema é quando o filme acaba e você fica com a sensação de “faltando um pedaço“. Não há comoção, não há expectativa, não há nada. Há um buraco. E mesmo com o belíssimo trabalho de Peter Ketnath (Johann) e de João Miguel (Ranulpho) ainda falta.

Pena, um filme lindo, mas falta. Vale, mas podia ser mais.

Fim da crônica cinematográfica (fim).

***

Cidade Baixa“, de Sérgio Machado.

Mais um candidato a rei-da-nouvelle-vague-tupiniquim. “É belo, tem talento, mas Turgueniev é melhor“, diria Tchekhov. Essa é a sensação. Alice Braga (Karina) dá show de interpretação bem acompanhada de Lázaro Ramos e Wagner Moura (Deco e Naldinho). A preparação de atores feita por Fátima Toledo na trinca dá um caldo gostoso de se ver, impressionante e comovente. A direção é boa, a produção caprichada. Dá pra sentir o cinema inteiro se remexendo na cadeira em algumas cenas.

Mas o conflito-do-filme fica solto no ar. A trinca se esforça, mas a falha é mesmo do roteiro. A sensação de que o editor cortou o rolo de filme antes do final é forte, e pelo menos motivo do “Cinema, Aspirinas e Urubus“.

Pena também. Um filme forte, que também podia ser mais.

Fim da crônica cinematográfica (fim).

***

Não tou achando a crônica de “Dois Filhos de Francisco” nesse blog. Tou seriamente desconfiada que eu esqueci de postar! :O

Posted by Lili in 18:54:01 | Permalink | No Comments »