Wednesday, March 29, 2006

431

Eu descobri que eu tenho um defeito péssimo. Eu tenho vergonha. Vergonha de não saber. E quem tem vergonha de não saber acaba tendo vergonha de aprender, de errar e de ser imperfeito. Eu descobri há pouco que eu carrego comigo isso há muito tempo. Eu nunca tinha tido consciência de como era importante pra mim parecer “perfeita” aos olhos dos outros. Isso significa, na verdade, que sempre atribuí valor demais a coisas que não tinham tanto valor assim. Porque nada tem tanto vaor assim. Mas na minha cabeça sempre foi muito importante levar tudo a sério, levar os outros a sério. Me levar a sério. E na verdade, nada é sério. Nada. Porque tudo é passível de erro e de mudança. Tudo é só uma parte. Não dá pra deixar que pequenas coisas rejar o mundo. Só que eu sempre deixei. Nunca criei tempestade em copo d’água. Sou até muito prática na realização das coisas. Mas a praticidade que eu carrego pra realização eu não carrego pra idealização. Então fica sempre a impressão de que eu sou mal-humorada. De que eu sofro em fazer qualquer coisa. Que eu não gosto das coisas quando na verdade nada disso é realmente o que eu sinto. Mas ao mesmo tempo eu me sinto extremamente angustiada de “ter” que fazer qualquer coisa. E descobri que este é o elo do problema. Só EU acho que eu TENHO que fazer alguma coisa. Ninguém mais acha. E eu fico com a sensação de que eu posso decepcionar as pessoas por não fazer e elas ficam com a sensação de que eu não estou fazendo de bom grado. Porque fica parecendo que eu faço sem querer fazer. Às vezes eu faço certas coisas sem querer fazer, mas é excessão. Na maior parte das vezes eu faço as coisas com vontade. Mas não consigo passar essa sensação porque me viciei em atrelar valores. Em tudo. Valores excessivos, quero dizer, porque tudo tem seu valor. Mas eu sem querer me coloco numa situação como se tudo fosse muito importante quando na verdade não é. E fico com medo de não dar conta, de errar, de ser ridícula e não fazer direito e decepcionar as pessoas. E elas nem estão preocupadas com isso. Ao contrário. A maior parte das pessoas espera primeiro o erro. E eu fico me cobrando demais e pareço arrogante querendo ser perfeita. Entende como é tudo um ciclo? Eu fico com medo de ser errada e erro por causa do meu medo. Eu fico querendo parecer certa e não pareço por querer demais.

É disso que eu tou tentando me libertar. Tou tentando aprender a lidar comigo, com as minhas imperfeições. Rir de mim mesma. Me esculachar. Mas é difícil fazer isso. Porque eu tenho um comportamento viciado em tentar aparentar ordem o tempo inteiro, mesmo quando eu estou no caos.

Essa é minha missão, comigo mesma, a partir de agora. Não quero compromisso com minha certeza. Tou aqui pra tentar. Não vou fazer disso uma obrigação porque senão caio na mesma armadilha, mas acredito que vai ser muito bom pra mim, então eu quero me propor esse desafio.


Acho que por enquanto é o que eu consigo falar. Porque descobri que eu não sei quase nada a respeito de mim mesma.

Que se inicie a etapa de liberação de mim! =)

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Sunday, March 26, 2006

430

Fargo“, de Joel Coen.

O roteiro do filme, baseado livremente em fatos reais pelos irmãos Joel e Etnan Coen, tem uma particularidade muito interessante: faz de um possível repetido thriller policial um circo humano. Apesar de a história toda rodar em torno de um sequestro planejado pelo marido da vítima e suas consequências, o foco da história não fica preso nas ações físicas, mesmo que impressionantes. Os Coen conseguem levar o foco para o interior de cada uma das personagens, em suas particularidades, em seu cotidiano, nas pequenas ações que contribuem para o todo mas que nunca são lembradas.

Tecnicamente é um filme bem elaborado, com uma fotografia diferente e linda. A edição surpreende para um thriller, mas acompanha com excelência o foco do roteiro. As atuações são certeiras, especialmente a do injustamente desvalorizado Steve Buscemi (como o sequestrador Carl Showalter) e a de Frances McDormand (como a policial Marge Gunderson).

É um filme diferente: um thriller humano, real.

Fim da crônica cinematográfica (The End).

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429

Os Excêntricos Tenembaums“, de Wes Anderson.

Um filme bom e difícil. Bom porque tem um ótimo elenco, porque é bem produzido, porque tem argumento simples e roteiro bem elaborado. Difícil porque não é um filme para todos os gostos. Ele trata de um humor negro no cotidiano mas de uma forma mais aguda do que o normal. As personagens são agudas, a forma com que são mostradas também o é. É o recorte que Anderson gosta de dar a seus filmes - e o que faz com que muitos o rejeitem.

Trata-se da história de um pai (Gene Hackman, como Royal Tenenbaum) que tenta se reaproximar de sua complexa família depois de anos ausente. Tudo é um tanto ácido mas ao mesmo tempo sutil. As personalidades são bem desenvolvidas e a arte, absurda e bem feita, ajuda a buscar esse clima quase surreal do dia-a-dia. Tecnicamente é um bom filme e o elenco estelar, que conta com Anjelica Huston, Bill Murray, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Danny Glover, Luke e Owen Wilson, entre outros, está em ótima forma.

É um ótimo filme, mas ácido. Não é para todos.

Fim da crônica cinematográfica (The End).

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428

Achadas & Perdidas“, de Maitê Proença e Luiz Carlos Góes, direção Roberto Talma.

Espetáculo teatral em cartaz no Rio, no Teatro do Leblon, escrito, co-dirigido e estrelado por Maitê Proença, engrossado por Clarisse Derzié. Trata-se de 6 esquetes de humor - algumas mais bem humoradas do que outras - sobre o universo feminino. Maitê, que se aventurou no campo da literatura há pouco tempo, trasncreveu alguns de seus contos para o palco, onde fala de seus sentimentos diante de uma série de situações como a dificuldade de escrever, a frustração em lidar com o envelhecimento, a inveja do companherismo masculino, a angústia em lidar com a perda de alguém querido, entre outros.

Não se trata de uma produção espetacular nem de atuações impecáveis. Tudo parece um tanto provisório ou improvisado, mas de uma certa forma o clima combina com o espetáculo. Maitê ainda precisa aprimorar sua técnica, mas ela leva vantagem por ser um texto autoral e claramente pessoal. Não chega a ser uma comédia rasgada, mas surpreende em alguns momentos, como a esquete “Meninas”, que extrai humor involuntário das atitudes de duas crianças em um velório.

No geral não é um ótimo espetáculo, mas é uma tentativa de expressão. Não sei se funcionaria bem se não fosse sobre alguém famoso, como a Maitê.

Fim da crônica teatral (b.o., baixa o pano).

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427

Boa Noite, e Boa Sorte“, de George Clooney.

Seria um documentário se não fosse uma reprodução. O filme trata do período de “caça às bruxas” comunista nos EUA e como ele foi desmascarado pela imprensa. Um tema antigo, por se tratar de comunismo e década de 50, mas extremamente atual, por falar de jogos de poder, política e a interferência da mídia.

É um filme com pouca interferência da direção, ao que parece, apesar da direção ser essencial para o bom andamento do filme. Mas como é uma representação da realidade daquele período, do envolvimento do jornalista Edward R. Murrow (bem interpretado por David Strathairn) num conflito de poder, foi uma opção da direção a pouca intromissão. Até mesmo a fotografia é retroativa, em preto e branco e no formato padrão do período. Tecnicamente é uma boa produção mas é pouco inventiva. Talvez por isso o filme seja mais um documento político do que uma grande produção artística. Mas é um ótimo filme. Vale assistir.

Fim da crônica cinematográfica (The End).

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Sunday, March 19, 2006

426

Tarde de domingo em casa tem dessas coisas…

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Saturday, March 18, 2006

425

Talvez você já tenha lido aí do lado ou em algum dos posts que eu sou Museóloga. Sim, isso é profissão. Sou graduada em Museologia pela UniRio. Sou a 1ª Museóloga na sua vida? Não me surpreende. Só existem dois cursos no país. Se muito abriu um terceiro, mas só. E por conta disso passei mais de 4 anos na universidade estudando a história, o funcionamento, a prática, a vida dos museus e seus companheiros. Pode parecer fácil, mas da turma de 1° período de 50 alunos formaram-se apenas 9. E a minha turma foi grande. Atribuo essa baixa a, pelo menos, três fatores:

1. A dificuldade do curso;
2. As condições do ensino público;
3. O mercado de trabalho.

Eu, por exemplo, trabalhei durante dois anos no Museu da República, aqui no Rio. Durante um ano fui estagiária IPHAN (contratada pelo mesmo órgão, do Ministério da Cultura) e no segundo fui contratada como prestadora de serviço. E o meu serviço não tinha nome. Por quê? Porque eu fazia um pouco de tudo. Eu era o ser que interligava os setores de montagem e organização de acervos e exposições. Então eu mexia desde o banco de dados, trabalhava com programação visual, era a fotógrafa oficial e recebia os clientes especiais. Foram dois anos ótimos. E foi quando eu conheci a verdadeira realidade dos museus brasileiros.

O meu cargo era um reflexo da condição dos museus. Falta infraestrutura, falta mão-de-obra (especializada e/ou não), falta empenho. Mas não por parte de quem está dentro. O pessoal que está dentro dobra e se desdobra pra que tudo continue funcionando, pra que tudo continue a existir. Trabalham pelo chamado “amor à arte”. O problema é lutar contra. Sem apoio não há como ultrapassar os piores problemas.

E aí entra a história dos dois roubos. Eu não estava dentro daqueles museus mas imagino a frustação dos funcionários com o acontecimento. Porque quem trabalha com patrimônio sabe o valor que ele tem, sabe o quanto ele é único - saber diferente do da grande maioria dos brasileiros, infelizmente. E exatamente por essa sensação, de que o brasileiro não tinha a menor noção do valor do patrimônio, que os museus sentiam-se (menos in)seguros. Porque não dá pra contar com segurança física, apenas com a desinformação geral. Mas esse mito acaba de cair por água, claramente. Os dois assaltos (o primeiro ocorrido durante um desfile do bloco de carnaval “Carmelitas” que passa em frente ao Museu Chácara do Céu e o segundo no Museu da Cidade, dentro do isolado Parque da Cidade) foram agressivos e planejados, como nunca se tinha visto no Brasil. Ladrões furiosos e armados que sabiam o que queriam e como tudo funcionava, do horário dos funcionários à localização do sistema de segurança. O que significa que o brasileiro começa a entender o valor do patrimônio.

O que era pra ser motivo de comemoração foi motivo de dor. Porque a população geral, pra quem toda essa identidade é preservada com tanto esforço, continua sem conhecer esse valor. Mas os bandidos conhecem. E essa informação causa um sentimento de impotência que a área de patrimônio relutava em aceitar: estamos desprotegidos.

O que vem por aí é impossível prever. Infelizmente os bandidos descobriram o ouro escondido. Felizmente os guardiões o protege por amor. Mas, e agora?

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Friday, March 17, 2006

424

Eu sei, eu sumi. Sumi mesmo. Há muitos dias sem postar, sem visitar os amigos. É que essa semana foi complicada. Muitas coisas pra fazer na urgência, resolver problemas pra poder ficar tranquila depois. Mas tá acabando. Juro que está. A partir de amanhã acho que já volto a postar direito e visitar os vizinhos e responder comentários e falar de tudo que eu queria falar e ainda não falei. Não postei sobre os museus e nem as últimas coisas que vi nem mais nada.

Com sorte tudo estará atualizado até o final do fim-de-semana.

Então, não se preocupe (viu, moça-Cris?), eu tou bem. Cansada, mas feliz a beça!

E você? Como está? Não aprontou muito enquanto eu estive longe, né? Olha que o Coelhinho da Páscoa não trás ovos pra crianças malcriadas! ;)

Posted by Lili at 16:03:30 | Permalink | Comments (4)

Friday, March 10, 2006

423

Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar na rua pedindo esmola, mas eu estou aqui forçando a barra pra fazer um post, mesmo sem tempo pra. Meus compromissos estão todos encavalados, o que tá me deixando doida e sem tempo pra postar direito.

Queria falar dos roubos nos museus… Vou falar, mas não vai ser hoje. Talvez amanhã. E vou postar a crônica do último filme que eu vi e da última peça também.

Eu vou. Juro que vou. Só me dá mais um tempinho… 

Posted by Lili at 16:45:40 | Permalink | Comments (26)

Wednesday, March 8, 2006

422

Eu não costumo postar texto de outros, mas hoje é dia de blogagem coletiva sobre o Dia Internacional da Mulher, e esse texto é tão massa!…

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Mulheres

“Se tem uma coisa que eu aprendi desde cedo é que ser mulher tem muitas e muitas vantagens. Claro que ser homem também tem, eu não posso, por exemplo, tirar a camisa em qualquer lugar só porque eu estou com calor, mas as vantagens femininas acabam superando esses pequenos detalhes. Aprendi no colégio, com um amigo - que na época era uma dessas amizades-coloridas-que-brilham-no-escuro, uma das tantas que eu tive nessa época em que eu era conhecida pelos íntimos como “Predadora” - a frase que me ajudaria muito na minha vida a partir de então: “Como é bom ter peito!”. Pode parecer bobagem, mas eu atravesso qualquer avenida por causa disso. E não é apenas o fato de ter peito, tem que saber usá-lo, inclinando pra frente, empinando e estampando um belo sorriso maroto e logo, não demora nada, os carros começam a parar e as pistas vão ficando livres pra dondoca aqui atravessar. Sim, é maldade, mas a gente precisa aprender a lidar com o mundo, meu amor. Não tenho culpa que os homens se encatam por um par de glândulas mamárias que acompanha uns dentes bonitos. Paguei caro por eles (pelos dentes, os peitos são naturais).

Aliás, essa coisa de sorrir é outra grande jogada. Não basta sorrir por sorrir, tem que ter a intenção, mesmo que falsa, de que você é uma pobre-menina-desprotegida que realmente precisa da ajuda daquele ser. E é fato: funciona para homens e mulheres. Um sorriso bem dado faz o mundo cumprir seus desejos. Quer passar? Mande um sorriso bondoso e o caminho ficará livre. É como aqueles olhos pidões do Gato de Botas do Shrek 2, as pessoas se derretem por um sorriso de mulher.

Os homens também têm essa capacidade, mas eles são burros nesse sentido, poucos usam. Acham que é mais interessante parecer másculo e viril e ficar com aquela postura bruta e machista. Só que não percebem que eles conquistam poucas mulheres com isso e que, homens, nem pensar! Tenho um amigo, muito esperto, que é tímido (mas não muito) e usa a timidez a favor dele. Faz doce, faz o tipo abandonado mas não-carente (porque mulher não suporta homem chiclete) e pega todas. E ele faz bem-pensado, não é à toa não. Ele é professor, mora sozinho, faz aquele tipo “minha-vida-está-uma-zona:-será-você-a-mulher-que-vai-arrumá-lá?”. Juro que as mulheres caem nessa. Muitas, aliás. É, tem mulher que é tonta. Até eu já fui, confesso. É que tem gente que sabe fazer bem o trabalho.

Além do sorriso e dos peitos, ser mulher tem umas vantagens adicionais de desculpa, e isso, não dá pra negar, grande parte do mulherio sabe usar. A mais famosa, sem dúvida, é a da TPM. Tá irritada com qualquer coisa, não quer ir a qualquer lugar, ou quer fazer uma merda, ou já fez uma merda e o negócio explodiu? Resposta: Estava com TPM. Básica. Por um lado acaba sendo uma chateação a confirmação de que os homens caem nessa - qualquer coisa que você faça que impressione um homem ele logo pergunta se você tá na TPM. Mas é o preço. Além da desculpa da TPM, tem a da fraqueza. Mulher é um bicho tão delicado, tadinha, mas só quando tem homem por perto, porque quando não tem carrega butijão de gás escada acima, mete a mão no quadro de luz porque não vai de jeito nenhum tomar banho gelado, resolve todo tipo de pepino. Mas com um homem por perto: pra quê? Eles têm que se sentir fortes e valorizados, certo? Lembra daquele comercial do vidro de condimentos? É isso. Eles precisam disso - e a gente dá isso pra eles, aproveitando pra fugir dessas tarefas chatas e cansativas.

Pode parecer exagero, mas eu juro que eu tou falando sério. A maior parte das mulheres jamais admitiria que usa da sua condição de mulher pra levar vantagem em alguma coisa, mas faz, e faz com gosto. E eu nem tou falando daquelas que dão pra cconseguir alguma coisa, não tou falando de sexo - porque essas são desesperadas, não entendem nada da doce arte de cozinhar o galo, como se diz. Pra que dar se você pode apenas fazer menção à, prometer e ponto? E quando é que eles vão saber que a coisa vai parar por aí? Nunca. Mas o negócio é nunca dizer “não”, assim eles vão ficar sempre na esperança, e enquanto um homem tem esperança ele não esquece. Claro que a tendência é dar uma apagadinha no fogo e ele procurar outra vítima, mas se a mulher souber manter a situação, ele vai arrumar várias, mas não esquecerá dela. Fato.

E eles acham que é vantagem ser homem só pra poder fazer xixi de pé…”

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Autorização dada pela xará do Dona Malvada.

Posted by Lili at 11:53:37 | Permalink | Comments (16)