Vi uma capa da Revista Época que trazia a foto quase-simpática de Geraldo Alckmin com a legenda que dizia que ele queria ser o novo Juscelino Kubitschek. Aquilo imediatamente me fez pensar na falta de memória e de reflexão do povo brasileiro, inclusive sua tendência a se deixar levar pelas opiniões generalizadas e fantasias da mídia. Acontece que tudo tem mais do que um lado e muitas vezes o lado que parece mais bonito não é o mais importante.
Falo mesmo de JK, o “Presidente Bossa Nova”, hoje endeusado como um dos melhores governantes do Brasil República graças a um revival em livros, artigos e mini-série televisiva. JK, da noite para o dia, digamos assim, foi nomeado exemplo de político a ser seguido, o que, sinceramente, me preocupa. Não que JK tenha se envolvido em grandes escândalos ou aprontado barbaridades. Mesmo se o fez a imprensa da época não registrou. Mas JK não se mostrou um político preparado. Não se cercou de bons estrategistas. Não resolveu problemas brasileiros visando o futuro. E com isso prejudicou, e muito, o futuro da nação que o elegeu.
Comecemos por seu plano de governo, com seu Plano de Metas de crescimento de “50 anos em 5″, escolhido para fazer esquecer o populista e idolatrado Governo de Getúlio Vargas. O desespero do líder da nação pelo crescimento nacional deixou o país em cheque, deixando visível sua fragilidade. Qualquer bom comerciante sabe que se negocia do maior para o menor, como forma de valorizar seu produto. Não deveria ter sido diferente com a abertura do Brasil para as empresas estrangeiras. “Temos um bom mercado pra vocês. Quanto vocês pagariam por isso?” ao invés de “Precisamos de suas mercadorias. Quanto temos que pagar pra vocês trazerem pra cá?”. Todas as grandes nações preocupadas com seu desenvolvimento adotam essa postura - umas mais radicais, outras menos - que chamamos de protecionismo. E esse não-protecionismo na base, promovendo o escancaramento comercial do Brasil para a produção externa, foi crucial para o surgimento da economia desregulada que enfrentamos hoje, já que o capital de lucro não permanece dentro do país e as empresas não têm grande compromisso com os trabalhadores locais nem mesmo com a economia nacional. O desenvolvimento nacional ficou atrelado à boa-vontade do capital estrangeiro, de sua mão-de-obra especializada, de suas bátinas de negociação. Foi o estopim para a inflação exorbitante, o êxodo rural desenfreado, o crescimento desordenado nas áreas urbanas, a exploração da mão-de-obra barata, o endividamento em nome do progresso. (E a herança como influência na venda que viria a acontecer de quase todas as empresas estatais de importância vital para o desenvolvimento auto-sustentável da nação.)
Um grande exemplo dessa desorganização econômica e de planejamento do governo JK, que refletiu em todo o desenvolvimento nacional até nosso modelo atual, foi a entrada das grandes fabricantes de automóveis no Brasil. Desde o Governo Vargas, com a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) através de negociação de interesses com o Governo dos Estados Unidos, já começamos a produzir bens de consumo, incluindo automotores. Não tínhamos uma produção em grande escala devido às dificuldades de tecnologia para desenvolvimento, mas isso não nos punha em condição de rebaixamento, bastava o investimento maciço em pesquisa e tecnologia de produção. O Governo JK, diante do surto histérico do crescimento instantâneo, achou como solução para o problema a não-negociação, apenas abrindo o mercado interno para a implantação da indústria internacional: sem taxas, sem conflitos, em qualquer parte do território nacional, e ainda cumprindo o acordo de abrir rodovias para incentivar o consumo de automóveis que seriam, em sua grande maioria, apenas montados no Brasil. Com isso o governo desviou-se definitivamente da implantação da malha ferroviária (meio de transporte que seria mais adequado à nossa extensão territorial por ser de menor custo de implantação e manutenção e por ser transporte coletivo) e ainda comprometeu-se por, no mínimo, 20 anos em obras e (não) impostos, ao invés de comprometer-se com o crescimento da indústria nacional, que promoveria tantos ou talvez até mais empregos do que as estrangeiras, e ainda geraria riquezas que ficariam no país, o que não ocorreu no caso de indústrias transnacionais.
Como reflexo do plano de implantação da indústria automobilística criou-se a Coderno (que viria a ser renomeada Sudene posteriormente), responsável pela ligação entre o Norte-Nordeste com o “resto do país”. A bela iniciativa, infelizmente, brotou por motivos fracos mesmo apoiada no maior projeto urbanístico já realizado no Brasil: a construção de uma cidade na região central do país para ser a nova sede do Governo da Nação e promover a ligação entre todas as regiões brasileiras. Brasília, como foi chamada a nova capital federal, inugurada em 1960, não cumpriu as metas para qual teoricamente foi criada. A interligação nacional não se completou e hoje continuamos com grande parte das regiões Norte e Nordeste ainda isoladas por via terrestre. E para piorar, a mudança da capital ainda promoveu dois grandes lapsos na história nacional: a desvinculação da identidade de nação - que mantinha como capital, desde a independência, a cidade do Rio de Janeiro -, ali deixada com a mudança da sede do governo; e o enfraquecimento dos movimentos sociais devido ao afastamento da capital de todo e qualquer centro urbano socialmente ativo. Os movimentos de reivindicação, que no Rio de Janeiro, em frente ao Palácio do Catete, faziam barulho com 100 mil pessoas, em Brasilia não chegam com facilidade e somem diante de uma área tão vasta, aberta e desumana. A partir da mudança do Governo para a distante Ilha-de-Brasília a política e seus representantes ficaram distantes da população, como se não participassem do mesmo território, como se não fizessem parte do mesmo país que tornou-se independente de Portugal e que revoltou-se com a política econômica em 1932, entre tantas outras memórias sociais importantes e esquecidas na antiga capital federal.
Pensando em retrocesso, se não pudermos responsabilizar JK pela herança ruim, por ele talvez não ter medido a inconsequência de suas ações apressadas para o futuro da nação, quem sabe possamos dizer que ele “não cogitou” a consequência de sua herança. De qualquer forma, Juscelino Kubitschek fica preso ou à irresponsabilidade ou à negligência, o que não faz dele um exemplo de líder a ser seguido. E o que me faz temer o futuro ao ler na capa de uma revista semanária de importância nacional que nosso próximo candidato, e talvez até futuro presidente, sonha ser igual a ele.