Wednesday, April 12, 2006

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Vi uma capa da Revista Época que trazia a foto quase-simpática de Geraldo Alckmin com a legenda que dizia que ele queria ser o novo Juscelino Kubitschek. Aquilo imediatamente me fez pensar na falta de memória e de reflexão do povo brasileiro, inclusive sua tendência a se deixar levar pelas opiniões generalizadas e fantasias da mídia. Acontece que tudo tem mais do que um lado e muitas vezes o lado que parece mais bonito não é o mais importante.

Falo mesmo de JK, o “Presidente Bossa Nova”, hoje endeusado como um dos melhores governantes do Brasil República graças a um revival em livros, artigos e mini-série televisiva. JK, da noite para o dia, digamos assim, foi nomeado exemplo de político a ser seguido, o que, sinceramente, me preocupa. Não que JK tenha se envolvido em grandes escândalos ou aprontado barbaridades. Mesmo se o fez a imprensa da época não registrou. Mas JK não se mostrou  um político preparado. Não se cercou de bons estrategistas. Não resolveu problemas brasileiros visando o futuro. E com isso prejudicou, e muito, o futuro da nação que o elegeu.

Comecemos por seu plano de governo, com seu Plano de Metas de crescimento de “50 anos em 5″, escolhido para fazer esquecer o populista e idolatrado Governo de Getúlio Vargas. O desespero do líder da nação pelo crescimento nacional deixou o país em cheque, deixando visível sua fragilidade. Qualquer bom comerciante sabe que se negocia do maior para o menor, como forma de valorizar seu produto. Não deveria ter sido diferente com a abertura do Brasil para as empresas estrangeiras. “Temos um bom mercado pra vocês. Quanto vocês pagariam por isso?” ao invés de “Precisamos de suas mercadorias. Quanto temos que pagar pra vocês trazerem pra cá?”. Todas as grandes nações preocupadas com seu desenvolvimento adotam essa postura - umas mais radicais, outras menos - que chamamos de protecionismo. E esse não-protecionismo na base, promovendo o escancaramento comercial do Brasil para a produção externa, foi crucial para o surgimento da economia desregulada que enfrentamos hoje, já que o capital de lucro não permanece dentro do país e as empresas não têm grande compromisso com os trabalhadores locais nem mesmo com a economia nacional. O desenvolvimento nacional ficou atrelado à boa-vontade do capital estrangeiro, de sua mão-de-obra especializada, de suas bátinas de negociação. Foi o estopim para a inflação exorbitante, o êxodo rural desenfreado, o crescimento desordenado nas áreas urbanas, a exploração da mão-de-obra barata, o endividamento em nome do progresso. (E a herança como influência na venda que viria a acontecer de quase todas as empresas estatais de importância vital para o desenvolvimento auto-sustentável da nação.)

Um grande exemplo dessa desorganização econômica e de planejamento do governo JK, que refletiu em todo o desenvolvimento nacional até nosso modelo atual, foi a entrada das grandes fabricantes de automóveis no Brasil. Desde o Governo Vargas, com a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) através de negociação de interesses com o Governo dos Estados Unidos, já começamos a produzir bens de consumo, incluindo automotores. Não tínhamos uma produção em grande escala devido às dificuldades de tecnologia para desenvolvimento, mas isso não nos punha em condição de rebaixamento, bastava o investimento maciço em pesquisa e tecnologia de produção. O Governo JK, diante do surto histérico do crescimento instantâneo, achou como solução para o problema a não-negociação, apenas abrindo o mercado interno para a implantação da indústria internacional: sem taxas, sem conflitos, em qualquer parte do território nacional, e ainda cumprindo o acordo de abrir rodovias para incentivar o consumo de automóveis que seriam, em sua grande maioria, apenas montados no Brasil. Com isso o governo desviou-se definitivamente da implantação da malha ferroviária (meio de transporte que seria mais adequado à nossa extensão territorial por ser de menor custo de implantação e manutenção e por ser transporte coletivo) e ainda comprometeu-se por, no mínimo, 20 anos em obras e (não) impostos, ao invés de comprometer-se com o crescimento da indústria nacional, que promoveria tantos ou talvez até mais empregos do que as estrangeiras, e ainda geraria riquezas que ficariam no país, o que não ocorreu no caso de indústrias transnacionais.

Como reflexo do plano de implantação da indústria automobilística criou-se a Coderno (que viria a ser renomeada Sudene posteriormente), responsável pela ligação entre o Norte-Nordeste com o “resto do país”. A bela iniciativa, infelizmente, brotou por motivos fracos mesmo apoiada no maior projeto urbanístico já realizado no Brasil: a construção de uma cidade na região central do país para ser a nova sede do Governo da Nação e promover a ligação entre todas as regiões brasileiras. Brasília, como foi chamada a nova capital federal, inugurada em 1960, não cumpriu as metas para qual teoricamente foi criada. A interligação nacional não se completou e hoje continuamos com grande parte das regiões Norte e Nordeste ainda isoladas por via terrestre. E para piorar, a mudança da capital ainda promoveu dois grandes lapsos na história nacional: a desvinculação da identidade de nação - que mantinha como capital, desde a independência, a cidade do Rio de Janeiro -, ali deixada com a mudança da sede do governo; e o enfraquecimento dos movimentos sociais devido ao afastamento da capital de todo e qualquer centro urbano socialmente ativo. Os movimentos de reivindicação, que no Rio de Janeiro, em frente ao Palácio do Catete, faziam barulho com 100 mil pessoas, em Brasilia não chegam com facilidade e somem diante de uma área tão vasta, aberta e desumana. A partir da mudança do Governo para a distante Ilha-de-Brasília a política e seus representantes ficaram distantes da população, como se não participassem do mesmo território, como se não fizessem parte do mesmo país que tornou-se independente de Portugal e que revoltou-se com a política econômica em 1932, entre tantas outras memórias sociais importantes e esquecidas na antiga capital federal.

Pensando em retrocesso, se não pudermos responsabilizar JK pela herança ruim, por ele talvez não ter medido a inconsequência de suas ações apressadas para o futuro da nação, quem sabe possamos dizer que ele “não cogitou” a consequência de sua herança. De qualquer forma, Juscelino Kubitschek fica preso ou à irresponsabilidade ou à negligência, o que não faz dele um exemplo de líder a ser seguido. E o que me faz temer o futuro ao ler na capa de uma revista semanária de importância nacional que nosso próximo candidato, e talvez até futuro presidente, sonha ser igual a ele.

Posted by Lili in 10:23:34
Comments

19 Responses

  1. É verdade. JK era até bem-intencionado, mas seu governo perdulário quase levou o país à ruína (tarefa completada pelo “milagre econômico” e pelas obras faraônicas do regime militar). A mudança da capital para Brasília beneficiou a poucos e prejudicou a muitos - principalmente à própria cidade do Rio, que não recebeu a atenção devida e, desde então, só fez decair.

  2. cris says:

    nem em meus piores pesadelos consigo imaginar geraldo alckmin presidente… bj

    off topic: tá dando um tempo, né? já deu pra sentir. às vezes a gente fica meio cansado disso aqui. eu também preciso me afastar pra estudar mais.

  3. Rodrigo says:

    dá o que pensar… de repente, pensando de um ponto de vista estritamente egoísta, vale masi a pena prum presidente investir no marketing pessoal do que no país. Todo mundo lemmbra do JK e do Getúlio, do Rodrigues Alves não ficou nenhuma memória.

    Em tempo: será que daquia 50 anos vão fazer minissérie sobre o Lula? Ibope vai dar, com certeza.

    bjo!

  4. Mc Mut says:

    Sinceramente… o Alckmin é o melhor candidato. E o governo dele , se seguir a linha econômica do Lula e ainda adicionar um belo investimento no social - o que não é difícil com caixa “sobrando” - tem chance de chegar junto ao do JK - que diga-se de passagem , ainda é o melhor governo brasileiro na relação tempo no poder/feitos.

    Bjs!

  5. Olá! Encontrei hoje o seu blog porque estava a pesquisar sobre segurança, prevenção e protecção em Museus. Se fosse possível agradecia resposta via email sobre a sua disponibilidade para me dar uma pequena ajuda :) Obrigada!

  6. cris says:

    que chovam coelhinhos nessa páscoa!! (quer coisa mais nonsense pra alguém dizer? pois é. ganhei o troféu). bj

  7. paulinho says:

    Lili,

    Niterói, terra de Araribóia, está linda vestida de espanhola. Ontem fomos ver Uxia, sábado vimos Miró, sexta vimos Cutelaria de Albacete. Venha nos visitar. Podemos lanchar ou almoçar aqui em csa. É tudo de grátis. Cortesia da Prefeitura mais cultural desse estado ou país.

    bj,

  8. paulinho says:

    Lili,

    Niterói, terra de Araribóia, está linda vestida de espanhola. Ontem fomos ver Uxia, sábado vimos Miró, sexta vimos Cutelaria de Albacete. Venha nos visitar. Podemos lanchar ou almoçar aqui em csa. É tudo de grátis. Cortesia da Prefeitura mais cultural desse estado ou país.

    bj,

  9. Aurea says:

    Olá linda td bem?Entrei no seu orkut e vi que vc postava em um blog e minha curiosidade me trouxe aqui.Achei bem reflexivo ,o que vc postou.(Me imaginei lendo um artigo de uma cientista política).Principalmente quando fala sobre a imagem de “homem santo” que a mídia tem posto atualmente sobre JK.É realmente preocupante,como o desenrolar dos fatos muitas vezes são deturpados pelos veículos de comunicação em massa.Poxa,se todas as pessoas tivessem uma consciência crítica igual a sua nesse país que é uma ilha de ignorância,estaríamos bem melhor do que estamos.Beijo grande!Futura Presidente…rs…
    Bem…eu voto em vc!

  10. Grande análise. Estamos tão carentes de bons lideres que temos que recorrer a estes expedientes. Deu no que deu, em 76 o governo fechou as portas estatizou tudo e atrasou o país em quase 20 anos.

  11. Lili says:

    Daniel,
    se JK tinha ou não boas intenções acho que agora vai ser difícil saber. O que importa no fim das contas é o que herdamos dele.
    Quanto às obras faraônicas da Ditadura, algumas são fundamentais hoje em dia, como a Ponte Rio-Niterói, por exemplo. Acho que obras faraônicas não são problemáticas mas necessárias, desde que feitas da forma certa e com bom objetivo. Se não existisse gente pensando assim o Rio ainda estaria atolado na antiga Av. Central já que no começo do século XIX se perguntavam “pra que isso? Jamais teremos tantos carros pra ocupar tanta rua!”. Agora, Brasília poderia até ser construída, mas mudar para lá a Capital Federal acho que foi demais.
    Bjo.

  12. Lili says:

    Cris,
    se Alckimin vai ou não ser presidente eu acho tão incógnita quanto a porcentagem de políticos honestos na câmara. Se bem, que até dá pra chutar um resultado pra ambos…
    E tou mais ou menos dando um tempo sim. Não é voluntário, é que não tou dando conta.
    Bjo.

  13. Lili says:

    Rodrigo,
    sabe que você tem razão? Será que foi isso?
    Se vai ter mini-série sobre o Lula? Se ele for parente de algum autor de dramaturgia vira certeza. Se não, é muito provável. Presidente metalúrgico parece mesmo ficção.
    Bjo.

  14. Lili says:

    Mc Mut,
    tenho que discordar de você. Primeiro sobre JK ter sido nosso melhor governo até hoje. Meus motivos estão no post. Acho, ao contrário, ele um dos piores presidentes que já tivemos, se não o pior.
    Segundo, sobre o Alckimin. Mas não sei te dizer quem é o melhor canditato, até porque não estão todos definidos ainda. De qualquer forma não acredito que Alckmin tenha pulso firme o suficiente pra controlar esse país. Vide seus problemas com as penitenciárias de SP. Pelo menos é ele o candidato e não o Serra, que não fez absolutamente nada de relevante por Sampa em seu mandato já interrompido, apesar da promessa de não renunciar se fosse eleito prefeito.
    Tenho receio do PSDB no poder. Veja o que aconteceu com nosso patrimônio produtivo, as estatais.
    Bjo.

  15. Lili says:

    Maria,
    te mando um email em breve.
    Bjo.

  16. Lili says:

    Cris,
    tomara que na sua tenha chovido! (tou beeeem atrazilda, né?)
    Bjo.

  17. Lili says:

    Paulinho,
    tou louca pra passear por essas bandas daí. E louquíssima pra ver Miró!
    Quero ver vocês, quero papo, quero esse lanche e quero toda essa cultura anunciada.
    Será que agora vai?
    Bjo.

  18. Lili says:

    Aurea,
    que bom te ver por aqui, lindona! =D
    Pois se política fosse “dereita” eu aceitava seu impulso e me candidatava. ;)
    Bjo.

  19. Lili says:

    Ricardo,
    há controvérsias.
    O problema não está na estatização. Estatizar é dar ao país seu patrimônio produtivo, manter o lucro do lado de dentro. O problema do Brasil está (desde aquela época, ou até desde sempre) na burocratização. Se o serviço público funcionasse como o privado as Estatais teriam elevado bem o país.
    Não dá pra aceitar que um país do tamanho do nosso, com a riqueza que temos e mercado enorme fique nas mãos dos produtores externos ou das transnacionais camufladas, como a Vale do Rio Doce. O solo é nosso, a Vale um dia foi nossa (foi privatizada a preço de banana no governo FHC) e o lucro que ela produz, sendo hoje um dos melhores investimentos da bolsa, poderiam ainda ser nosso.
    Era só desburocratizar…
    Bjo.