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Há um tempo atrás eu descobri que tenho alergia a pêlo de cachorro. Não tenho de gatos nem de esquilos nem de ornitorrincos (ainda bem!), só de cachorros. Pra mim não foi tão ruim descobrir isso. Não tenho cachorro em casa nem pretendo ter.
Mas eu não esperava que eu ia começar a trabalhar numa casa com cachorros. Quatro, pra ser mais exata. E, pra piorar a situação de quem não está afim de contato com tais bichos… são poodles. Três fêmeas e um macho. Não podem ver ninguém chegar, não se pode sentar em lugar nenhum na casa que eles já pulam em cima, querem colo, querem lamber tua cara.
Eu faço um esforço danado pra trabalhar sem a interferência deles. Na verdade delas. Porque o macho é cego de nascença, quietinho e solitário, a única interferência que faz é o cocô andando. Porque todos fazem cocô e xixi em qualquer canto da casa, mas o macho faz andando, deixa rastro. É difícil não ser interferido por um deles em algum momento. Muito difícil. E nem tou falando das crises alérgicas. Mas eu até que tava me dando bem com eles. Tinha até escolhido uma “preferida”.
Tinha. Porque ontem, enquanto eu atendia a porta e o telefone e tentava fazer a impressora voltar a funcionar, ela mesma, a preferida, me provocou. Quando fui até minha mochila - que todos os dias fica quietinha em cima da cadeira - pegar meus óculos me deparei com o fiozinho branco do meu fone de ouvido indo até o chão. Fui puxando, devagar, receosa, até encontrar o horror: o fone direito comido, mastigado, até sem borrachinha. Na cadeira ao lado a dona destruidora olhava pra mim com cara de fiz-merda e com a borrachinha no estômago.
Minha raiva foi crescendo, e crescendo, e crescendo. Dei um berro com a cachorra, que abaixou as orelhas. Joguei o fone em cima da mesa, catei a cachorra da cadeira e joguei em direção à janela. Ela quicou na rede de segurança e voltou, voando, derrubando o vaso de orquídeas da mesa antes de cair no chão. Começou a correr, eu atrás dela. Alcancei-a e me lancei a apanhá-la, mas quando a toquei ela dilacerou minha mão esquerda. Aos berros corri pela casa atrás dela, minha mão jorrando sangue, e ao passar pela cozinha me armei com um cutelo, que estava em cima da pia. Nos reencontramos na área de serviço. Ela com todos aqueles dentes pra fora, eu com uma mão dilacerada e um cutelo. Foi quando chegou a secretária.
A desgraçada correu pra ela, abanando o rabinho. Eu joguei o cutelo dentro da pia e enfiei a mão no bolso da calça jeans, enquanto contava pra secretária, já na sala, quem tinha ligado enquanto ela estava fora.
Nos encaramos antes de eu ir embora. Mas ela não perde por esperar.