Tuesday, October 31, 2006

508

Entrei no ônibus quase vazio e fui direto pro meu lugar. Ficava bem ao lado da escada, não era difícil de encontrar. Poltrona 17, janela. Nunca compro janela mas embarquei no ônibus quase saindo e ele tava vazio, com certeza não precisava me preocupar de ocuparem o lugar ao lado.

Arrumei minha mochila no descanso de pés da poltrona 18, engatilhei o mp3 player, coloquei a água no porta copos. Cinto de segurança afivelado - sabe lá quem está dirigindo esse ônibus - e poltrona reclinada. Tudo ajeitado para viajar, eu achava.

Achava. Até me dar conta que, na poltrona ao lado/frente da minha um carinha mirradinho, esquisito, bobo mesmo, tava bem melhor do que eu: ele tinha um laptop.

Não consegui desgrudar o olho da tela do computador dele um minuto sequer. Não tinha como. Seis horas de viagem com certeza se tornam muito mais divertidas com alguma parafernalha eletrônica. E a dele ainda conectava internet via celular. Chequei seu Orkut, li suas conversas (nada santinhas) no MSN, e troquei meus pedaços de papel impressos dados na sala vip da rodoviária por uma edição atualizada e eletrônica do jornal, onde pude acompanhar a apuração dos votos minuto a minuto.

Apesar da minha relativa cegueira à distância tava indo tudo muito divertido. E aí chegou a parada. E o magrinho desceu do ônibus, deixando o laptop em cima do banco. Ligado. Fiquei olhando praquela geringonça que olhava pra mim, brilhando. Eu olhava pra ela, pra janela, pra ela, pra janela… e nada do mirradinho. Então por que não?

Sorrateiramente pulei pra poltrona 18. Olhei pros lados no corredor. Nada. Mais uma vez janela. E também nada. E o bichinho brilhando pra mim. Deslizei pelo corredor até a poltrona dele, 12, e carinhosamente aninhei o ser iluminado no meu colo, feliz com a possibilidade de checar meu email depois de três dias sem internet ou mesmo de postar depois de mais de uma semana sem tempo pra nada. Abri o navegador, página do Gmail, nome de login. Ao mesmo tempo outro navegador (coisas de quem usa Firefox) e blog, login. E quando tava abrindo o terceiro navegador, pau. Pau. E pânico. Um bicho iluminado em coma no meu colo. Dei control alt del, apertei tudo quanto foi tecla e pau. O bicho não se movia, autista.

O desesperto foi crescendo conforme notei o magrelinho voltando pela plataforma comprida. E o brilho autista não falava comigo. E então resolvi tomar uma atitude drástica: fechei o bicho e botei no banco. Era isso aí. Nada a fazer a não ser fingir que eu nunca tinha sido chamada pela luz. E corri de volta pra 17.

O magrelo entrou logo em seguida. Segundos. Eu com o fone no ouvido fingia distração. Ele tirou o computador da poltrona pra sentar - e mal se deu conta quando, com a saculejada da manobra do ônibus, deixou o dito cair. No banco, pro alívio dele. Mas desconectando a bateria, pro alívio meu.

Enfiei o earphone bem fundo na orelha depois. E me cobri quase toda com o cobertor. Melhor não correr riscos. Essa coisa de abdução por luz é um troço sério, pode apostar.

Posted by Lili at 00:13:49 | Permalink | Comments (18)

Sunday, October 22, 2006

507

Eu tou sumida sim. É que peguei o ônibus errado e dormi, sem querer. Agora tou numa rua que eu nem sei bem qual o nome e ainda não descobri como se volta daqui. Vou ver se alguém sabe. Péra aí.
Posted by Lili at 14:25:18 | Permalink | Comments (14)

Monday, October 16, 2006

506

Me mudei pro Rio em 2000. E meu primeiro endereço na cidade maravilhosa foi a (para mim) desconhecida Rua Prado Júnior. Para mim, eu disse. Porque no Rio ela é conhecidíssima. É o point. Movimentadíssima, 24 horas por dia. Com suas meninas pelas esquinas.

Eu morava no quarto andar de um prédio familiar, com quatro velhinhos espanhóis. Estranho, eu sei, mas isso é história pra outro post. Morava no quarto andar e quando chegava o final de tarde me posicionava na janela da sala pra assistir a um espetáculo que só Copacabana é capaz de proporcionar a uma pessoa de forma tão natural. Às seis da tarde, mais ou menos, numa quitinete no prédio em frente, três travestis se arrumavam todos os dias para o turno. Penteavam perucas, apertavam o espartilho umas das outras. Na rua, as meninas começavam a chegar. As das seis sempre mais light, menos chamativas. Depois o negócio esquentava e as saias diminuiam - quando existiam. E quando os gatos ficavam pardos as boates da rua abriam. Tudo muito curioso pra uma garota da plácida periferia.

Foi por isso que eu me ofereci para acompanhar uma amiga quando ela contou que ia numa dessas boates, fazer um laboratório. Ela vai fazer um longa, vai interpretar uma puta, e vai gravar na maior, na mais bonita, a da esquina, a que era mais visível da minha janela e a que eu tinha mais curiosidade de entrar.

E fomos. Segunda à noite. Casa não muito cheia, mas muitos gringos. O preço da entrada dá o tom da casa: tudo bem arrumado, cara de restaurante de hotel de luxo, garçons de terno, lanterninha pra chegar até a mesa na boca do palco. Nós duas e um amigo preocupado, que nos deu “normas de segurança” antes de sairmos de casa.

Da mesinha em frente ao palco podíamos ver a casa quase toda. E as meninas dançando. Bonitas, bem arrumadas, sorridentes. Uma delas tinha cabelo de novela. Ficamos cogitando quanto tempo ela tinha passado no salão à tarde. Conversamos com algumas delas. Quando explicávamos nossa empreitada elas sorriam e se abriam. Diziam até o nome verdadeiro. Sempre simpáticas, tentando tirar daquele trio inusitado o divertimento da noite de trabalho duro. Me puxaram pra sambar no palco, dançaram pra nós no show de strip tease.

Foi quando me dei conta da falta do meu celular. Onde? Levantamos, olhamos em baixo da mesa. Tudo muito escuro. Olha no banheiro, sugeriu minha amiga. Fui e nada. Vou chamar o lanterninha, disse quando voltei à mesa, e segui pro bar, atravessando o salão.

Expliquei pro leão-de-chácara da porta o ocorrido e ele pediu que eu esperasse que um lanterninha me acompanharia até lá. Foi quando senti a mão no meu ombro.

- Oi gracinha.

Virei e vi um cara, nem velho nem moço, nem feio nem bonito, nem bêbado nem sóbrio. Ligeiramente insosso.

- Oi.

- É a primeira vez que te vejo aqui.

- É porque é minha primeira vez aqui.

- Notei. Vamos comemorar a sua estréia? Tem desconto de lançamento?

Acho que minha cara de interrogação foi muito forte, porque a expressão dele mudou também.

- Olha, acho que tá rolando um engano. É só me olhar direito… - e eu olhei em volta e me dei conta que, não só elas não eram estereotipadas, como se vestiam melhor do que eu. Jeans, blusinha, sandália de salto. Só que nelas, de marca - … e vai ver que eu já tou com cliente. Aquele casal ali, querido.

Apontei pros meu amigos, que se dividiam em assistir ao show e procurar meu celular, sem ter idéia de que, em segundos, tinham virado meus clientes.

O rapaz olhou pra eles, fez cara de insosso de novo.

- Então a gente comemora a reinauguração amanhã. - E saiu atrás de uma mulatona.

Quando o lanterninha chegou eu até já tinha esquecido o que eu tinha ido pedir. Rodamos a mesa mas não encontramos o celular, que só foi localizado depois, no chão do carro.

Na saída da casa o insosso botou a mão no meu ombro de novo.

- Até amanhã.

Contrariei uma das regras de segurança e sorri. E ele deve ter me esperado.

Posted by Lili at 14:02:26 | Permalink | Comments (12)

Sunday, October 1, 2006

505

Quando voltava do CIEP, aqui do ladinho de casa, onde fui justificar meu voto, passou um menino vestido de Sr. Incrível de mãos dadas com a mãe, apontando pro chão e perguntando: “E o que é tudo isso espalhado na rua?”. Passei antes de ouvir a mãe completar a frase “Ah, meu filho, isso é…”. Lixo eleitoral? Falta de vergonha na cara? Publicidade ilegal em dia de eleição?

Parei antes de chegar na esquina. Olhei em volta e eram muitos papéizinhos de candidatos. Um em especial. Arraes. Alexandre Arraes. Comecei a pegar os “santinhos”. Foi quando notei que eram muitos mesmo, não daria pra recolhê-los todos nas mãos. Corri pra casa, voltei pra calçada com um saco de lixo. Recolhi, um por um, os santinhos na minha rua. Depois separei os do Arraes - a grande maioria. Enfiei o saco na mala de um dos táxis do ponto em frente do meu prédio. “Pro comitê desse moço aqui, ó!”, apontei o papel pro motorista.

Lá, uma festa. Pessoas comemorando a boa campanha de Arraes. Entrei sem ser notada. Fui até a mesa da secretária sem ser notada. Anotei o endereço da casa do homem que estava em uma agenda sem ser notada. E saí, de volta ao meu taxi, rumo à residência daquele senhor candidato tão festeiro.

Na portaria do prédio dei a sorte de alguém estar saindo quando eu queria entrar. Sorte, porque não precisei ser anunciada. Subi no elevador com o saco de lixo nas costas e da mesma forma toquei a campainha.

Me atendeu à porta um homem sorridente, de pulover, com um telefone na mão.

- Seu Arraes? Alexandre Arraes?

- Sou eu. - Confirmou sorrindo com um ar de estranhamento.

- Dá licença.

Entrei em sua sala onde sua família e seus assessores riam, comemorando a ótima campanha. Me olharam curiosos e, alguns segundos depois perplexos, enquanto eu rasgava o saco e jogava todos aqueles santinhos sujos de rua pro ar charmoso de sua residência.

- Obrigada. - Disse, saindo, enquanto todos me observavam imóveis.

Voltei pro meu taxi, pra minha rua agora limpa, pra minha casa.

Alguém tem que fazer o trabalho sujo, fazer o quê.

***

*Esta é uma obra de semi-ficção: grande parte dos momentos descritos acima não são reais.

Posted by Lili at 19:17:33 | Permalink | Comments (49)