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Entrei no ônibus quase vazio e fui direto pro meu lugar. Ficava bem ao lado da escada, não era difícil de encontrar. Poltrona 17, janela. Nunca compro janela mas embarquei no ônibus quase saindo e ele tava vazio, com certeza não precisava me preocupar de ocuparem o lugar ao lado.
Arrumei minha mochila no descanso de pés da poltrona 18, engatilhei o mp3 player, coloquei a água no porta copos. Cinto de segurança afivelado - sabe lá quem está dirigindo esse ônibus - e poltrona reclinada. Tudo ajeitado para viajar, eu achava.
Achava. Até me dar conta que, na poltrona ao lado/frente da minha um carinha mirradinho, esquisito, bobo mesmo, tava bem melhor do que eu: ele tinha um laptop.
Não consegui desgrudar o olho da tela do computador dele um minuto sequer. Não tinha como. Seis horas de viagem com certeza se tornam muito mais divertidas com alguma parafernalha eletrônica. E a dele ainda conectava internet via celular. Chequei seu Orkut, li suas conversas (nada santinhas) no MSN, e troquei meus pedaços de papel impressos dados na sala vip da rodoviária por uma edição atualizada e eletrônica do jornal, onde pude acompanhar a apuração dos votos minuto a minuto.
Apesar da minha relativa cegueira à distância tava indo tudo muito divertido. E aí chegou a parada. E o magrinho desceu do ônibus, deixando o laptop em cima do banco. Ligado. Fiquei olhando praquela geringonça que olhava pra mim, brilhando. Eu olhava pra ela, pra janela, pra ela, pra janela… e nada do mirradinho. Então por que não?
Sorrateiramente pulei pra poltrona 18. Olhei pros lados no corredor. Nada. Mais uma vez janela. E também nada. E o bichinho brilhando pra mim. Deslizei pelo corredor até a poltrona dele, 12, e carinhosamente aninhei o ser iluminado no meu colo, feliz com a possibilidade de checar meu email depois de três dias sem internet ou mesmo de postar depois de mais de uma semana sem tempo pra nada. Abri o navegador, página do Gmail, nome de login. Ao mesmo tempo outro navegador (coisas de quem usa Firefox) e blog, login. E quando tava abrindo o terceiro navegador, pau. Pau. E pânico. Um bicho iluminado em coma no meu colo. Dei control alt del, apertei tudo quanto foi tecla e pau. O bicho não se movia, autista.
O desesperto foi crescendo conforme notei o magrelinho voltando pela plataforma comprida. E o brilho autista não falava comigo. E então resolvi tomar uma atitude drástica: fechei o bicho e botei no banco. Era isso aí. Nada a fazer a não ser fingir que eu nunca tinha sido chamada pela luz. E corri de volta pra 17.
O magrelo entrou logo em seguida. Segundos. Eu com o fone no ouvido fingia distração. Ele tirou o computador da poltrona pra sentar - e mal se deu conta quando, com a saculejada da manobra do ônibus, deixou o dito cair. No banco, pro alívio dele. Mas desconectando a bateria, pro alívio meu.
Enfiei o earphone bem fundo na orelha depois. E me cobri quase toda com o cobertor. Melhor não correr riscos. Essa coisa de abdução por luz é um troço sério, pode apostar.