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Com a mudança de casa entrei na roda pra um jogo antigo: será-que-cabe?
Depois que consegui organizar minhas milhões de tralhas em caixas e as centenas de caixas num “buraco negro” - tudo provisoriamente definitivo, claro - veio a hora de organizar a cozinha. Não há numa casa pior espaço a ser organizado do que a cozinha. Quem tem ou já teve uma cozinha na vida sabe do que eu estou falando. Se você nunca teve, não perde por esperar.
Depois de botar tudo no chão e ficar ali, encurralada, me dei conta que não dava mais pra voltar tudo pro lugar. Não tinha espaço. Sim, as coisas que já estavam na cozinha. Não me pergunte como estava antes, essas coisas são mistérios da humanidade que nenhum filósofo alemão jamais vai desvendar. O que sai de um armário de cozinha jamais volta ileso pra ele. Foi por isso que decidi que precisava de prateleiras.
O melhor da história foi que as prateleiras já existiam. Estavam estacionadas perto do “buraco negro”, esperando a vez delas de brilhar. Branquinhas e reluzentes, perfeitas pra cozinha.
Chamei o faz-tudo-do-prédio, o Silvio*. Aquele que sabe pouco e sempre ganha um trocado fazendo o que os moradores sabem menos ainda. Precisava de uma furadeira, na verdade, não do faz-tudo, mas ele resolvia bem a questão. Pelo menos eu achava.
Apontei onde queria que ele instalasse as prateleiras: na parede da pia. Fizemos teste de tamanho, altura, parafusos. Prontos pra começar… parou no meio. Opa, opa! Como assim?
- O que é que temos aqui?… um cano!
- Um cano?!
- Isso mesmo! Um cano! A senhora pode tentar de novo.
- Mas o cano está na vertical ou na horizontal?
Ele me olhou com cara de quem não podia dar as dicas do jogo.
- Certo… então, mais pra esquerda, Silvio.
Ok, cozinha, canos são comuns. Mas o cano devia ser vertical, então pra esquerda não teria o…
- Sinto muito, sinto muito… aposta errada, Dona Elisa! O cano está na horizontal!
- Ah, Silvio! Como?! Agora temos dois buracos e nenhum parafuso!
- Mas você pode continuar tentando.
- Ok, Silvio… então muda a altura. Continua na vertical.
Tinha perdido dois buracos, mas não a esperança.
- Muito bem, Dona Elisa! Ponto pra senhora! Temos um buraco válido!
Vibrei. Estava mais perto do grande prêmio. Ele furou mais um e… sucesso! Dos quatro parafusos da prateleira, dois já estavam ganhos - os do lado esquerdo.
Sorri mais quando o primeiro furo do lado direito entrou. Oba! E agora o quarto e…
- Ih, Dona Elisa…
- Ai, Silvio! Não pode ser! Como pode ter um cano aí? Em baixo furou e o furo da esquerda tá na mesma altura, não tem como ter cano na horizontal! O que é isso, um cotovelo??
- A senhora pode continuar tentando… - ele me olhou com as sombrancelhas erguidas, desafiador.
- Hum… não dá pra pedir ajuda? Eu quero ajuda da planta hidráulica do prédio.
- Infelizmente a senhora não vai poder recorrer à ajuda. Não temos a planta hidráulica.
Comecei a roer as unhas. Era mesmo na sorte.
- Pára ou continua?
Esperei a platéia mas ela não se manifestou.
- Continua, Silvio.
Com suspense no ar ele empunhou de novo a furadeira, dessa vez um pouco mais pra direita. Tínhamos perdido todos os furos anteriores. Cinco já. E, calmamente, ele começou de novo. Um, foi. Dois, foi. Três, foi. Quatro… e foi!
Finalmente passamos pra segunda! Coladinha à direita da primeira. Primeiro furo da esquerda ok, segundo furo da esquerda, ok. Fantástico! Agora direita. Primeiro, ok. Segundo…
- Cano, Dona Elisa, cano…
- Ai, Silvio!… Não é possível!
- Pára ou continua?
- Agora não posso mais parar, Silvio! Agora é tudo ou nada.
- Você está certa disso? Vai ter que abrir espaço entre as prateleiras.
- Estou, Silvio. - Claro que eu não estava - Fura!
E o Silvio furou. Um. Tensão. Dois. Fui acabando com minhas unhas. Três. Faltava pouco… quatro! QUATRO!
Não acreditei. Quase chorei, de tanta emoção. O Silvio sorriu, satisfeito, e foi embora, me deixando de prêmio as sonhadas prateleiras branquinhas e, como brinde… oito buracos vazios na parede! Er… Oba. (Tudo em nome de uma cozinha arrumada.)
***
*Nome fictício alterado por preservação e licença poética.
