Wednesday, November 29, 2006

512

Com a mudança de casa entrei na roda pra um jogo antigo: será-que-cabe?

Depois que consegui organizar minhas milhões de tralhas em caixas e as centenas de caixas num “buraco negro” - tudo provisoriamente definitivo, claro - veio a hora de organizar a cozinha. Não há numa casa pior espaço a ser organizado do que a cozinha. Quem tem ou já teve uma cozinha na vida sabe do que eu estou falando. Se você nunca teve, não perde por esperar.

Depois de botar tudo no chão e ficar ali, encurralada, me dei conta que não dava mais pra voltar tudo pro lugar. Não tinha espaço. Sim, as coisas que já estavam na cozinha. Não me pergunte como estava antes, essas coisas são mistérios da humanidade que nenhum filósofo alemão jamais vai desvendar. O que sai de um armário de cozinha jamais volta ileso pra ele. Foi por isso que decidi que precisava de prateleiras.

O melhor da história foi que as prateleiras já existiam. Estavam estacionadas perto do “buraco negro”, esperando a vez delas de brilhar. Branquinhas e reluzentes, perfeitas pra cozinha.

Chamei o faz-tudo-do-prédio, o Silvio*. Aquele que sabe pouco e sempre ganha um trocado fazendo o que os moradores sabem menos ainda. Precisava de uma furadeira, na verdade, não do faz-tudo, mas ele resolvia bem a questão. Pelo menos eu achava.

Apontei onde queria que ele instalasse as prateleiras: na parede da pia. Fizemos teste de tamanho, altura, parafusos. Prontos pra começar… parou no meio. Opa, opa! Como assim?

- O que é que temos aqui?… um cano!

- Um cano?!

- Isso mesmo! Um cano! A senhora pode tentar de novo.

- Mas o cano está na vertical ou na horizontal?

Ele me olhou com cara de quem não podia dar as dicas do jogo.

- Certo… então, mais pra esquerda, Silvio.

Ok, cozinha, canos são comuns. Mas o cano devia ser vertical, então pra esquerda não teria o…

- Sinto muito, sinto muito… aposta errada, Dona Elisa! O cano está na horizontal!

- Ah, Silvio! Como?! Agora temos dois buracos e nenhum parafuso!

- Mas você pode continuar tentando.

- Ok, Silvio… então muda a altura. Continua na vertical.

Tinha perdido dois buracos, mas não a esperança.

- Muito bem, Dona Elisa! Ponto pra senhora! Temos um buraco válido!

Vibrei. Estava mais perto do grande prêmio. Ele furou mais um e… sucesso! Dos quatro parafusos da prateleira, dois já estavam ganhos - os do lado esquerdo.

Sorri mais quando o primeiro furo do lado direito entrou. Oba! E agora o quarto e…

- Ih, Dona Elisa…

- Ai, Silvio! Não pode ser! Como pode ter um cano aí? Em baixo furou e o furo da esquerda tá na mesma altura, não tem como ter cano na horizontal! O que é isso, um cotovelo??

- A senhora pode continuar tentando… - ele me olhou com as sombrancelhas erguidas, desafiador.

- Hum… não dá pra pedir ajuda? Eu quero ajuda da planta hidráulica do prédio.

- Infelizmente a senhora não vai poder recorrer à ajuda. Não temos a planta hidráulica.

Comecei a roer as unhas. Era mesmo na sorte.

- Pára ou continua?

Esperei a platéia mas ela não se manifestou.

- Continua, Silvio.

Com suspense no ar ele empunhou de novo a furadeira, dessa vez um pouco mais pra direita. Tínhamos perdido todos os furos anteriores. Cinco já. E, calmamente, ele começou de novo. Um, foi. Dois, foi. Três, foi. Quatro… e foi!

Finalmente passamos pra segunda! Coladinha à direita da primeira. Primeiro furo da esquerda ok, segundo furo da esquerda, ok. Fantástico! Agora direita. Primeiro, ok. Segundo…

- Cano, Dona Elisa, cano…

- Ai, Silvio!… Não é possível!

- Pára ou continua?

- Agora não posso mais parar, Silvio! Agora é tudo ou nada.

- Você está certa disso? Vai ter que abrir espaço entre as prateleiras.

- Estou, Silvio. - Claro que eu não estava - Fura!

E o Silvio furou. Um. Tensão. Dois. Fui acabando com minhas unhas. Três. Faltava pouco… quatro! QUATRO!

Não acreditei. Quase chorei, de tanta emoção. O Silvio sorriu, satisfeito, e foi embora, me deixando de prêmio as sonhadas prateleiras branquinhas e, como brinde… oito buracos vazios na parede! Er… Oba. (Tudo em nome de uma cozinha arrumada.)

***

*Nome fictício alterado por preservação e licença poética.

Posted by Lili in 19:27:05 | Permalink | Comments (7)

Monday, November 20, 2006

511

- Elisa, você podia nos ajudar… Não temos mais de onde cortar dinheiro pro orçamento bater. Você não quer ajudar a secretária a organizar os gastos?

Maldita hora que mostrei que eu sabia alguma coisa de matemática. Alguma coisa ainda sendo bem exagerada, porque o fato de eu ter crescido atrás de balcão de farmácia e fazer conta de boteco facilmente não me dá méritos matemáticos nenhum. E eu não podia dizer não.

- Ajudo…

- Pois então. Daqui a pouco eu passo lá pra conferir as contas. Aproveita e imprime pra mim um relatório dos pagamentos dos alunos.

Saí do escritório em direção à sala segurando a boca. “Eu não sou paga pra isso. Aliás, onde está meu pagamento depois de 10 dias de atraso?” quase saiu. Mas não custa tanto ajudar a secretária. Uma prestação de contas simples, oras. Entrou tanto, saiu tanto, défict/saldo de tanto. Pronto.

E isso realmente foi tranquilo. Sentamos, lado a lado, e em poucos minutos a prestação de contas estava pronta e funcionando. O dinheiro xis tá pra entrar e vai quitar as contas ypsilon, o que vai deixar tudo no azul até terça. E assim foi explicado pra ela quando entrou na sala e perguntou tudo.

- Não! Calma, Elisa! Deixa eu entender. Entrou xis. Entrou mais ypsilom. E mais zê. Isso dá quanto?

- Isso dá dábliw, Fulana.

- Péra, Elisa! Mas e o dinheiro xis?

- Tá aqui. Você já somou.

- Não!… ah, tá. E o ypsilon?

A secretária olhou pra minha cara com aquele ar de tá-vendo-pelo-quê-eu-passo?

- Tá aqui, fulana. Já foi somado.

- Hum. E isso deu quanto?

- Dábliw.

- Tá. E o que foi pago com esse ypsilon, especificamente?

- Como assim?

- Quais contas que foram pagas com esse ypsilon.

- Isso não faz diferença. A soma dos dinheiros foi usada pra pagar as contas alfa, beta…

- Calma, Elisa! Eu tenho que pensar! Tem que saber esse dinheiro aqui - esse ypsilon - onde foi gasto!

Meu sangue foi subindo. Como assim “Calma, Elisa!”? Não era pra gente explicar?

- Foi pago o aluguel, o condomínio e o gás, Dona Fulana. - interrompeu a secretária.

- Ah. Sim. Então soma com o alfa mais o beta…

- Não, Fulana - interrompi - isso é valor de saída, não soma com o de entrada.

- Soma sim! Calma, Elisa! Não vê que eu preciso pensar? Esse ypsilon somado com o alfa mais o xis mais do beta…

Calma, Elisa? Já não tava calma.

- …e o valor vai dar pi. Cadê esse pi? Onde foi parar todo esse dinheiro?

- A conta não funciona se for feita assim, Fulana…

- Não! Calma, Elisa!…

POW! Dei um murro no teclaro. Ela me olhou assustada, inclinando o corpo pra trás. A secretária segurou o riso, meio nervoso meio de graça.

- Pra quê diabos você pediu pra gente mexer nessas porra se você não quer ouvir? Será que dá pra calar a boca e prestar atenção, sua velha maluca?!

A secretária gelou. E a Fulana me olhou horrorizada.

Já tava me preparando pra levantar e sair quando ela desmontou. E caiu numa gargalhada tão profunda que começou a me dar medo. A secretária, sorrindo sem graça, não sabia se olhava pra mim ou pra Dona Fulana. Até que ela me olhou fundo no olho. Séria.

- Fan-tás-ti-co, Elisa! Achei, por segundos, que você estava me dando bronca, acredita!? - e saiu, leve, rindo, levando a secretária a tira-colo, naturalmente sorridentes.

Minha boca demorou um pouco a fechar. Mas como todo mundo começou a agir como se nada tivesse acontecido eu fui obrigada a me curar do choque. Porque pra conviver com maluco tem que aceitar. Ou sera que…?

Posted by Lili in 18:31:14 | Permalink | Comments (9)

Tuesday, November 14, 2006

510

Neste final de semana, em Arraial do Cabo (RJ), me deparei com um símbolo que encaixa certinho com meu agora…
Posted by Lili in 11:24:32 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, November 7, 2006

509

Uma semana de cão. Mihões de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Minha vida, definitivamente, não poderia ser normal. Não mesmo.  E não vem ao caso explicar tudo o que aconteceu. Até porque eu tou guardando isso pra um livro. É, foi muita coisa sim. O que importa é que minha vida virou novela. Ou filme do Almodovar - não sei dizer o que é mais bizarro.

Esse final de semana foi o ápice.

Um domingo corrido, compras, mudanças, uma porrada de coisas que então se empilharam na sala. Maratona digna de triatleta. Só parei às 23h. Ou tentei, pelo menos. Quando consegui sentar senti a dor. No peito, atrás do esterno. Ri. Que coisa, dor depois de uma semana dessas. E o ar começou a sumir. Um sufocamento, de repente. Levantei. Andando de um lado pro outro um elefante sentou no meu ombro. E a mistura de tudo virou enjôo.

Julio perguntou o que eu tava sentindo e depois da resposta correu pra internet. Santa internet. E lá leu que tudo isso era sintoma de infarto. Merda de internet. Quis me levar pro hospital. Não vou, bati pezinho. Não mesmo. Eu, com 24 anos, não vou ter um infarto. Não faz sentido. Uma hora depois, o corpo ainda sem responder, tava eu fazendo o primeiro eletrocardiograma da minha vida.

Quase uma hora da manhã tava voltando pra casa com a certeza de que não sou cardíaca, que preciso diminuir o stress e que isso só é possível se eu nascer de novo (desde que da próxima vez me dêem uma vida mais normalzinha, claro).

Posted by Lili in 22:44:08 | Permalink | Comments (11)