Friday, December 29, 2006

514

As malas quase prontas pra viagem, natal em família a vista, com uma parada estratégica de um diazinho, um só, em Mauá, pra lagartixar e amenizar o calor infernal que anda fazendo na cidade maravilhosa. Quando entro na sala me deparo com a porta da geladeira escancarada. Julio com uma faca na mão golpeia o congelador da Hotpoint anos 50, xodó da casa, mais do que um móvel.

- Julio, o que você tá fazendo?

- Degelando a geladeira.

- Agora? E assim?

- É rápido. Enquanto você termina de arrumar as malas eu arranco esse gelo daqui. Não demora nada. Já fiz muito isso, não dá pra esperar ela degelar sozinha.

- Mas, Julio, é muito gelo, vai demorar muito. E outra, não é bom ficar batendo assim no congelador, pode quebrar alguma coisa.

- Não quebra nada, não. Essa geladeira tem uns 60 anos e não faz um barulhinho, aguenta muito mais do que essas novas. Já fiz isso, acredita em mim, vou degelar pelo menos um pouco dela, só pra liberar o termostato.

Continuou batendo na crosta de gelo que tinha se formado em volta da caixinha que, nos anos 50, eles chamavam de congelador.

- Você tem um martelo? - Me olhou, cúmplice - Vai dizer que você nunca fez isso?

Quem nunca fez? Ri, enquanto abria a caixa de ferramentas e pegava o martelo mais leve. Entreguei a ele, observei rapidinho a pancadaria e o gelo voando pela sala inteira, mas tinha malas pra terminar.

Com as malas prontas voltei pra sala. Ele ainda lá, esculpindo a caixinha de metal. O chão de taco inundado. Concordou que era hora de parar:

- Já livrei o termostato, olha. - e me mostrou a tampinha já aberta e o botão redondinho branco lá dentro. - Deixa só eu limpar um pouquinho em volta do fio do termostato e aí eu paro.

Com um pano eu sequei o chão enquanto ele desentortava a faca anos 70, presente de casamento que meus pais receberam e nunca tiveram coragem de usar pelo design arrojado demais e a cor, laranja-avermelhado, forte demais.

Porta aberta, janelas fechadas, malas no corredor. Chamamos o elevador e finalmente trancamos a porta, sem imaginar que deixávamos pra volta uma geladeira morta, comidas azedas e água pelo chão, frutos do encontro dos anos 50 com os 70.

20 anos se esbarrando num fiozinho…

Posted by Lili at 22:40:43 | Permalink | Comments (4)

Wednesday, December 13, 2006

513

Ontem antes de sair eu alertei:

- Se teu vôo é as quatro você tem que sair de casa às duas. Uma hora antes pra check in e mais o tempo de chegar até o aeroporto. Fora essa história toda da crise aérea…

Eu tento. Eu sou teimosa. Sempre fui. Mas falar com porta é até mais contrutivo do que dar conselhos pra certas pessoas.

Cheguei hoje e ela estava toda calma. Era meio-dia. Me recebeu sorrindo, as malas abertas pela sala. Pediu pra eu arrumar o zíper de uma delas, que tava quebrado. Inacreditavelmente tranquila com as malas de zíper quebrado. Mas eu fui treinada numa organização secreta especial da Tanzânia e virei mestre em consertar zíperes. Ainda assim mais três pessoas - além de mim - corriam de um lado pro outro, enlouquecidas com o que entrava e saia daquelas malas de pano da década de 70 que nunca mais tinham saído do armário.

- Nunca viajei sozinha. Não assim. Tantos anos e nunca fiquei realmente sozinha em lugar nenhum. Tou ansiosa. - Ela dizia enquanto andava agitada e enlouquecia as pessoas pedindo seus óculos, coisas de farmácia a serem encomendadas pra já e os CDs.

Quando deu uma hora ela saiu. Passear, não sei. Saiu. E levou uma das três pessoas, comprar não-sei-o-quê. Enquanto isso as outras duas - e eu aproveitei e entrei na onda - paramos pra almoçar. Foi quando contei pras duas que o vôo era às quatro e todas essas necessidades de viajar de avião. Elas comeram preocupadas, imaginando.

Duas e quinze eu saí. Ela ainda não tinha voltado.

Quando voltei, dez pras três, ela - calmamente - estava no quarto. As malas abertas na sala. Perguntei pra uma delas que horas ela sairia e, enquanto me respondia, preocupada com o horário do vôo, recebeu uma advertência vinda de longe, que quem sabia do horário era ela, a viajante. Entendi. Fechei as malas, organizei o que faltava e fiquei ali, sabendo exatamente os segundos seguintes:

De repente ela entrou em parafuso, “Meu vôo sai às quatro! Eu vou perder o avião! Vocês estão me atrasando! Eu VOU perder o avião!”; eu, calmamente, fechei as malas, desci pro taxi, arrumei-as no banco da frente já que esses táxis com gás ficam sem porta-malas, deixei tudo preparado e voltei, por um elevador, e fui ouvindo-as descendo pelo outro, no auge do stress, três e quinze.

Não disse tchau. E fiquei na janela olhando elas partirem - a viajante e duas acenadoras profissionais pra fazer plantão no hall de embarque. E preferi nem tentar descobrir o que veio depois.

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