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Chegou o carnaval. E com ele uma onda de anormalidade que impressionatemente toma conta das pessoas. Parar uma avenida de grande movimento, por exemplo, não pode ser uma coisa normal. Mesmo num domingo. Não perceber, há uma quadra dessa grande avenida, que por ali não tem saída, não pode de forma alguma ser normal. Não dar ré e fica ali, no carro, esperando, como se o bloco fosse desintegrar em segundos e finalmente dará passagem para seu belo automóvel é a coisa mais anormal que eu já vi.
É, hoje eu vi. E não só vi.
Fecharam a avenida da praia. E eu tava acompanhando o Julio até lá, que ele tinha que tirar uma foto de uma fachada, exatamente no lugar que tava um bloco. E assim que a gente chegou naquele quarteirão a gente notou a zorra. Então dividimos as funções: enquanto ele corria buscar a tal foto eu daria ré até a esquina, pra pegar a rua paralela à da praia e poder sair dali. Mas o que normalmente pareceria óbvio e normal o “efeito carnaval” tomou o resto dos motoristas, que não entenderam tão facilmente. E em segundos tinha uma fila de carros se formando atrás de mim.
Rapidinho o Julio voltou, mas os carros não entendiam minha luz de ré. Passei o volante pra ele e abrimos as janelas, pra sinalizar que pra frente nada andava. Mas nada. Então resolvi sair do carro. Fui pra trás do nosso pretinho reluzente e comecei a sinalizar pro senhorzinho, logo atrás da gente, que ele tinha que recuar. Mas ele tava longe.
- Pra trás, meu senhor! Boooora!
Ele, finalmente me olhou, mas com cara de bocó.
- Pra trás, meu senhor! Tem bloco na praia! - apontei pra rua, pra ver se ele sacava. Mas ele continuou lá, bocó.
Fui me aproximando do carro dele e a cara de bocó foi virando cara de interrogação. Botei as mãos no capô.
- Meu senhor, dá ré! Rééééé!
A cara dele era a mais anormal que já vi, e isso foi me dando uma raiva, mas uma raiva… Dei um tapa no capô do carro. Ele deu um pulinho no banco. Fiquei olhando pra ele, olho no olho, cara de doberman, ele recuando no banco, começou a escorrer pros pedais.
- Rééééé, pooooorra! - rosnei.
Pois o senhorzinho começou a buzinar e, finalmente, dar ré. Estava amedrontado. Buzinava e olhava pra minha cara de doberman, dando ré sem nem olhar pra trás direito. O carro de trás percebeu que ia tomar uma porrada e, às pressas, engatou a ré também. Em poucos segundos virou uma reação em cadeia e a rua foi se abrindo pro pretinho reluzente passar.
Na esquina, cara a cara pela última vez, abri um sorriso pro senhorzinho. Mas ele arrancou sem entender, então rapidinho fiz questão de gritar:
- É o carnaval, meu senhor!… Car-na-val!