Monday, February 12, 2007

519

Chegou o carnaval. E com ele uma onda de anormalidade que impressionatemente toma conta das pessoas. Parar uma avenida de grande movimento, por exemplo, não pode ser uma coisa normal. Mesmo num domingo. Não perceber, há uma quadra dessa grande avenida, que por ali não tem saída, não pode de forma alguma ser normal. Não dar ré e fica ali, no carro, esperando, como se o bloco fosse desintegrar em segundos e finalmente dará passagem para seu belo automóvel é a coisa mais anormal que eu já vi.

É, hoje eu vi. E não só vi.

Fecharam a avenida da praia. E eu tava acompanhando o Julio até lá, que ele tinha que tirar uma foto de uma fachada, exatamente no lugar que tava um bloco. E assim que a gente chegou naquele quarteirão a gente notou a zorra. Então dividimos as funções: enquanto ele corria buscar a tal foto eu daria ré até a esquina, pra pegar a rua paralela à da praia e poder sair dali. Mas o que normalmente pareceria óbvio e normal o “efeito carnaval” tomou o resto dos motoristas, que não entenderam tão facilmente. E em segundos tinha uma fila de carros se formando atrás de mim.

Rapidinho o Julio voltou, mas os carros não entendiam minha luz de ré. Passei o volante pra ele e abrimos as janelas, pra sinalizar que pra frente nada andava. Mas nada. Então resolvi sair do carro. Fui pra trás do nosso pretinho reluzente e comecei a sinalizar pro senhorzinho, logo atrás da gente, que ele tinha que recuar. Mas ele tava longe.

- Pra trás, meu senhor! Boooora!

Ele, finalmente me olhou, mas com cara de bocó.

- Pra trás, meu senhor! Tem bloco na praia! - apontei pra rua, pra ver se ele sacava. Mas ele continuou lá, bocó.

Fui me aproximando do carro dele e a cara de bocó foi virando cara de interrogação. Botei as mãos no capô.

- Meu senhor, dá ré! Rééééé!

A cara dele era a mais anormal que já vi, e isso foi me dando uma raiva, mas uma raiva… Dei um tapa no capô do carro. Ele deu um pulinho no banco. Fiquei olhando pra ele, olho no olho, cara de doberman, ele recuando no banco, começou a escorrer pros pedais.

- Rééééé, pooooorra! - rosnei.

Pois o senhorzinho começou a buzinar e, finalmente, dar ré. Estava amedrontado. Buzinava e olhava pra minha cara de doberman, dando ré sem nem olhar pra trás direito. O carro de trás percebeu que ia tomar uma porrada e, às pressas, engatou a ré também. Em poucos segundos virou uma reação em cadeia e a rua foi se abrindo pro pretinho reluzente passar.

Na esquina, cara a cara pela última vez, abri um sorriso pro senhorzinho. Mas ele arrancou sem entender, então rapidinho fiz questão de gritar:

- É o carnaval, meu senhor!… Car-na-val!

Posted by Lili at 02:16:16 | Permalink | Comments (5)

Saturday, February 3, 2007

518

A vantagem das férias do Julio, além dele ficar quase que exclusivo pra mim, é que de vez em quando o carro também fica. Eu não sou uma exímia motorista, mas sei que é por falta de prática, já que eu só pego carro quando roubo o de alguém da família em São Paulo ou quando o Julio fica com preguiça de sair. E ambas as oportunidades são raridade.

Pois o Julio está de férias e o carro fica lá, na garagem, esperando pra ser usado. Bonitinho, pretinho, reluzente, com um ar condicionado fresquinho e um cd player que fantasticamente me distrai no meu mini-percurso diário. Mini porque, quando muito, contando que uma música tem cerca de 3 minutos, eu consigo ouvir 5 delas. Isso se tiver trânsito.

Pois ontem eu fui de carro.

Cheguei na garagem e ele estava apontando pra porta, pronto pra sair. Sorri pro garagista, entrei e fui. Trânsito bom na Jardim Botânico - que eu não posso dizer que é raridade, já que a Jardim Botânico é a rua mais de lua do mundo - e em poucos minutos estava eu achando um vaga na rua da minha cliente. Vaga fácil, depois da esquina, nem precisei manobrar.

Quando abri a porta veio o guardador de carros, um senhorzinho, me fazendo sinal.

- Não pára aí, não. Tem caminhão descarregando ali atrás e eles passam por essa esquina tirando fina de quem pára aí. Às vezes batem mesmo. Pára na outra ali, depois da garagem.

Fechei a porta, chave de novo na ignição, ré pra sair da esquina, primeira pra entrar na vaga depois da entrada da garagem. Fui direto, só que quando parei vi que o carro não cabia. Desci pra conferir.

- Tem certeza que tá bom aqui? Tou na frente da garagem.

- Põe aqui então, nessa de trás, perto de mim. É só dar ré.

Voltei pro carro, porta, chave na ignição e uma ré, torta, já sem paciência por estar perdendo, pra estacionar, o tempo que eu demoro pra chegar. E finalmente parei.

- Aí você pode deixar o carro o quanto quiser. Ele pode até dormir aí que não tem problema.

Finalmente. Agora era só pegar um trocadinho no imã de moeda que fica no buraquinho da porta… mas o imã não tava lá, tava na sacola que a gente levou pra praia. Fucei a mochila e nada. Nenhum centavo na carteira. Nenhum real também. Saí sem dinheiro.

- Tou sem nada aqui, te dou depois, tá? - disse, pulando do carro e andando sem olhar pra trás, confiando que o botãozinho fecha a porta mesmo quando a gente não olha.

Quatro horas depois voltei pra rua. Hora de pegar o carro. Olhei de longe e não vi o senhorzinho. Corri pro carro, porta, chave, mas ele viu e veio, rapidinho, parando do lado do carro, como se numa rua morta daquela eu precisasse que ele parasse o trânsito pra eu sair.

- Tou sem um centavo aqui. Te dou depois, tá? - e arranquei meio culpada, meio com raiva de ter que dar dinheiro pra alguém “guardar” meu carro.

Agora um pouquinho mais de trânsito na Jardim Botânico, música alta, dança ao volante e em 15 minutos estava eu apertando o controlo remoto da garagem do prédio. E foi quando eu me lembrei deste detalhe: a garagem do prédio.

Entrei tranquila, pensando no garagista. Ele sabe que eu sou atrapalhadinha, deixo o carro na mão dele e ele acha uma vaga no labirinto estreito. Mas ele não estava na santa-poltrona dele.

- Ok, carrinho! Isso é um desafio! Vamos encaixar você em algum lugar!

Primeira. Fui guiando lentamente para o fundo. Freio. As vagas fáceis estavam preenchidas - provavelmente topeiras que nem eu. Olhei em volta e vi uma, na lateral, na ponta do corredor, e pra ajudar sem carro atrás. É só ir bem pra frente, inclinando pra direita, depois voltar de ré e pronto. O Julio faz isso todo dia, não pode ser difícil.

Primeira. Volante pra direita, carro embicado até a parede.

Ré. Putz, nunca tinha visto essa pilastra atrás. Quem botou ela aí? Não vai dar.

Primeira. É só colocar um pouco mais pra direita, aí quando eu der ré, coloco pra direita de novo e o carro passa.

Ré. Que raios de espaço minúsculo! E engenheiro burro esse que coloca uma pilastra na frente da outra! Ficou apertado isso aqui… vou ter que ir pra frente de novo, daí a próxima ré pra direita vai dar certo.

Primeira. Rápida, entre duas pilastras não tem muito espaço mesmo.

Ré. Ah! Agora foi! É só alinhar com o carro do fundo e colar bem a lateral, pra ninguém bater no carro, e isso é tranquilo.

Primeira. Ficou torto. Ré, só pra alinhar um pouquinho. Primeira, passei o nariz do carro. Ré, agora vai ficar no lugar.

E freio. Finalmente.

Chave, porta e saí do carro, orgulhosa por mais um dia de volante e feliz por ninguém ter visto isso.

Posted by Lili at 12:50:34 | Permalink | Comments (6)

Thursday, February 1, 2007

517

Tava um dia de calorão, apesar desse verão insosso que tem feito aqui no Rio, e não dava pra resistir a um mergulho no fim do dia, depois do trabalho. Julio me pegou e fomos, em busca de uma praia calma onde pudéssemos aproveitar o mar e a areia sem os milhões de turistas desamparados que rondam a cidade.

Atravessamos o túnel e bem rápido já estávamos na Barra, rumo à praia da Reserva. Como não tem nada na orla da praia da Reserva a areia é mais limpa, com menos gente.

Pra nossa surpresa, os nichos de estacionamento micro que existem por lá estavam ocupados. Três carros por nicho não é praia lotada, mas pra uma sexta à tarde nos surpreendeu. Deixamos então o carro em um estacionamento na metade da orla, onde um cara de sunga sinalizava a entrada em baixo de um mastro com bandeiras desfiadas. O estacionamento também não estava tão vazio quanto esperávamos, mas meia dúzia de carros num estacionamento não é sinal de praia cheia.

Trocamos de roupa no carro agradecendo ao santo que inventou a película fumée pra vidros automotivos e, só com uma bolsa com toalha, água e o protetor solar, finalmente, seguimos pra areia.

E, realmente, a praia não estava cheia. Mas, pra nossa surpresa, também não estava vazia. Olhamos rapidamente em volta e vimos um clarãozinho um pouco mais adiante, onde poderíamos deixar nossas coisas tranquilamente na areia e cair no mar. Andamos calmamente até lá mas a areia formava um barranco em frente ao mar, não tava bom de ficar ali. Como mais pra frente tinha gente pescando e anzol não combina nada com mergulho, resolvemos voltar um pouco e ficar perto de um casal que se divertia rolando no banco de areia. Colocamos nossas coisas na areia, ao lado deles.

- Vocês podem dar uma olhadinha nas coisas pra gente dar um mergulho? - pedi pra moça que nem era mais tão moça e que ria muito, à milanesa.

- Claro! Vão tranquilos! - Ela sorriu.

Entramos finalmente no mar. A água tava escura, revolta, um pouco longe do normal. Algas tóxicas, lembrei.

- Na ponta da Barra, lá no quebra-mar, lembra que deu no jornal? Deve ser reflexo.

Mas reflexo de algas tóxicas não são algas tóxicas, então continuamos a diversão que tinha ficado um pouco menos divertida com a lembrança.

- Lili, tem um cara vindo pra cá. Tou de olho, mas fica esperta. - Disse o Julio, dos seus 1,91m, à espreita.

- Que cara?

- Tá com uma mochila nas costas. Bem estranho, porque tá se equilibrando no barranco em vez de ir pela areia, por cima… Vamos sair.

Começamos a andar e o cara, meio de longe, resmungou alguma coisa que eu não entendi. Continuamos seguindo pela água.

- O que foi que ele disse, Julio?

- Não entendi bem, mas acho que perguntou se tava fundo aqui. A gente com a água na cintura. Quer puxar papo.

- Puxar papo?!?

Saímos da água e o cara tinha ido embora por onde ele tinha chegado. Voltamos pras nossas coisas e então eu me dei conta na quantidade de homens sozinhos naquela praia.

- Estão todos esperando sacanagem.

- Jura?

- A praia fica deserta e vira prato cheio pra isso. Na verdade, essa praia é point de sacanagem, mas achei que em dia de semana não fosse não… - disse ele, se vestindo, alerta aos urubus que nos olhavam de longe.

Fiquei passada. E finalmente tudo fez sentido. Nos secamos, amarrei uma canga na cintura e fomos rumo à saída da praia.

- Disfarça. Olha aquele ali. - Apontou - Tá com a mão no pau. Tá esperando alguém chamar. E aquele outro, tá olhando pra gente, tá vendo? Tá achando que a gente tá escolhendo alguém.

Enquanto a gente passava por aquela fauna, todos olhavam pra gente e se aproximavam um pouquinho. Andávamos quase disfarçados, como se pudéssemos acordar os leões. E, definitivamente, eu não estava nem um pouco afim de ser devorada.

Finalmente voltamos pro estacionamento. Água sem dengue nos pés pra tirar a areia e, já dentro do carro,a salvos, o porteiro do estacionamento avisa:

- Olha o cinto de segurança! Além do perigo tem a multa e 7 pontos na carteira.

Perigo? Qual deles, cara-pálida?

Posted by Lili at 13:49:07 | Permalink | Comments (6)