Friday, December 29, 2006

514

As malas quase prontas pra viagem, natal em família a vista, com uma parada estratégica de um diazinho, um só, em Mauá, pra lagartixar e amenizar o calor infernal que anda fazendo na cidade maravilhosa. Quando entro na sala me deparo com a porta da geladeira escancarada. Julio com uma faca na mão golpeia o congelador da Hotpoint anos 50, xodó da casa, mais do que um móvel.

- Julio, o que você tá fazendo?

- Degelando a geladeira.

- Agora? E assim?

- É rápido. Enquanto você termina de arrumar as malas eu arranco esse gelo daqui. Não demora nada. Já fiz muito isso, não dá pra esperar ela degelar sozinha.

- Mas, Julio, é muito gelo, vai demorar muito. E outra, não é bom ficar batendo assim no congelador, pode quebrar alguma coisa.

- Não quebra nada, não. Essa geladeira tem uns 60 anos e não faz um barulhinho, aguenta muito mais do que essas novas. Já fiz isso, acredita em mim, vou degelar pelo menos um pouco dela, só pra liberar o termostato.

Continuou batendo na crosta de gelo que tinha se formado em volta da caixinha que, nos anos 50, eles chamavam de congelador.

- Você tem um martelo? - Me olhou, cúmplice - Vai dizer que você nunca fez isso?

Quem nunca fez? Ri, enquanto abria a caixa de ferramentas e pegava o martelo mais leve. Entreguei a ele, observei rapidinho a pancadaria e o gelo voando pela sala inteira, mas tinha malas pra terminar.

Com as malas prontas voltei pra sala. Ele ainda lá, esculpindo a caixinha de metal. O chão de taco inundado. Concordou que era hora de parar:

- Já livrei o termostato, olha. - e me mostrou a tampinha já aberta e o botão redondinho branco lá dentro. - Deixa só eu limpar um pouquinho em volta do fio do termostato e aí eu paro.

Com um pano eu sequei o chão enquanto ele desentortava a faca anos 70, presente de casamento que meus pais receberam e nunca tiveram coragem de usar pelo design arrojado demais e a cor, laranja-avermelhado, forte demais.

Porta aberta, janelas fechadas, malas no corredor. Chamamos o elevador e finalmente trancamos a porta, sem imaginar que deixávamos pra volta uma geladeira morta, comidas azedas e água pelo chão, frutos do encontro dos anos 50 com os 70.

20 anos se esbarrando num fiozinho…

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Wednesday, December 13, 2006

513

Ontem antes de sair eu alertei:

- Se teu vôo é as quatro você tem que sair de casa às duas. Uma hora antes pra check in e mais o tempo de chegar até o aeroporto. Fora essa história toda da crise aérea…

Eu tento. Eu sou teimosa. Sempre fui. Mas falar com porta é até mais contrutivo do que dar conselhos pra certas pessoas.

Cheguei hoje e ela estava toda calma. Era meio-dia. Me recebeu sorrindo, as malas abertas pela sala. Pediu pra eu arrumar o zíper de uma delas, que tava quebrado. Inacreditavelmente tranquila com as malas de zíper quebrado. Mas eu fui treinada numa organização secreta especial da Tanzânia e virei mestre em consertar zíperes. Ainda assim mais três pessoas - além de mim - corriam de um lado pro outro, enlouquecidas com o que entrava e saia daquelas malas de pano da década de 70 que nunca mais tinham saído do armário.

- Nunca viajei sozinha. Não assim. Tantos anos e nunca fiquei realmente sozinha em lugar nenhum. Tou ansiosa. - Ela dizia enquanto andava agitada e enlouquecia as pessoas pedindo seus óculos, coisas de farmácia a serem encomendadas pra já e os CDs.

Quando deu uma hora ela saiu. Passear, não sei. Saiu. E levou uma das três pessoas, comprar não-sei-o-quê. Enquanto isso as outras duas - e eu aproveitei e entrei na onda - paramos pra almoçar. Foi quando contei pras duas que o vôo era às quatro e todas essas necessidades de viajar de avião. Elas comeram preocupadas, imaginando.

Duas e quinze eu saí. Ela ainda não tinha voltado.

Quando voltei, dez pras três, ela - calmamente - estava no quarto. As malas abertas na sala. Perguntei pra uma delas que horas ela sairia e, enquanto me respondia, preocupada com o horário do vôo, recebeu uma advertência vinda de longe, que quem sabia do horário era ela, a viajante. Entendi. Fechei as malas, organizei o que faltava e fiquei ali, sabendo exatamente os segundos seguintes:

De repente ela entrou em parafuso, “Meu vôo sai às quatro! Eu vou perder o avião! Vocês estão me atrasando! Eu VOU perder o avião!”; eu, calmamente, fechei as malas, desci pro taxi, arrumei-as no banco da frente já que esses táxis com gás ficam sem porta-malas, deixei tudo preparado e voltei, por um elevador, e fui ouvindo-as descendo pelo outro, no auge do stress, três e quinze.

Não disse tchau. E fiquei na janela olhando elas partirem - a viajante e duas acenadoras profissionais pra fazer plantão no hall de embarque. E preferi nem tentar descobrir o que veio depois.

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Wednesday, November 29, 2006

512

Com a mudança de casa entrei na roda pra um jogo antigo: será-que-cabe?

Depois que consegui organizar minhas milhões de tralhas em caixas e as centenas de caixas num “buraco negro” - tudo provisoriamente definitivo, claro - veio a hora de organizar a cozinha. Não há numa casa pior espaço a ser organizado do que a cozinha. Quem tem ou já teve uma cozinha na vida sabe do que eu estou falando. Se você nunca teve, não perde por esperar.

Depois de botar tudo no chão e ficar ali, encurralada, me dei conta que não dava mais pra voltar tudo pro lugar. Não tinha espaço. Sim, as coisas que já estavam na cozinha. Não me pergunte como estava antes, essas coisas são mistérios da humanidade que nenhum filósofo alemão jamais vai desvendar. O que sai de um armário de cozinha jamais volta ileso pra ele. Foi por isso que decidi que precisava de prateleiras.

O melhor da história foi que as prateleiras já existiam. Estavam estacionadas perto do “buraco negro”, esperando a vez delas de brilhar. Branquinhas e reluzentes, perfeitas pra cozinha.

Chamei o faz-tudo-do-prédio, o Silvio*. Aquele que sabe pouco e sempre ganha um trocado fazendo o que os moradores sabem menos ainda. Precisava de uma furadeira, na verdade, não do faz-tudo, mas ele resolvia bem a questão. Pelo menos eu achava.

Apontei onde queria que ele instalasse as prateleiras: na parede da pia. Fizemos teste de tamanho, altura, parafusos. Prontos pra começar… parou no meio. Opa, opa! Como assim?

- O que é que temos aqui?… um cano!

- Um cano?!

- Isso mesmo! Um cano! A senhora pode tentar de novo.

- Mas o cano está na vertical ou na horizontal?

Ele me olhou com cara de quem não podia dar as dicas do jogo.

- Certo… então, mais pra esquerda, Silvio.

Ok, cozinha, canos são comuns. Mas o cano devia ser vertical, então pra esquerda não teria o…

- Sinto muito, sinto muito… aposta errada, Dona Elisa! O cano está na horizontal!

- Ah, Silvio! Como?! Agora temos dois buracos e nenhum parafuso!

- Mas você pode continuar tentando.

- Ok, Silvio… então muda a altura. Continua na vertical.

Tinha perdido dois buracos, mas não a esperança.

- Muito bem, Dona Elisa! Ponto pra senhora! Temos um buraco válido!

Vibrei. Estava mais perto do grande prêmio. Ele furou mais um e… sucesso! Dos quatro parafusos da prateleira, dois já estavam ganhos - os do lado esquerdo.

Sorri mais quando o primeiro furo do lado direito entrou. Oba! E agora o quarto e…

- Ih, Dona Elisa…

- Ai, Silvio! Não pode ser! Como pode ter um cano aí? Em baixo furou e o furo da esquerda tá na mesma altura, não tem como ter cano na horizontal! O que é isso, um cotovelo??

- A senhora pode continuar tentando… - ele me olhou com as sombrancelhas erguidas, desafiador.

- Hum… não dá pra pedir ajuda? Eu quero ajuda da planta hidráulica do prédio.

- Infelizmente a senhora não vai poder recorrer à ajuda. Não temos a planta hidráulica.

Comecei a roer as unhas. Era mesmo na sorte.

- Pára ou continua?

Esperei a platéia mas ela não se manifestou.

- Continua, Silvio.

Com suspense no ar ele empunhou de novo a furadeira, dessa vez um pouco mais pra direita. Tínhamos perdido todos os furos anteriores. Cinco já. E, calmamente, ele começou de novo. Um, foi. Dois, foi. Três, foi. Quatro… e foi!

Finalmente passamos pra segunda! Coladinha à direita da primeira. Primeiro furo da esquerda ok, segundo furo da esquerda, ok. Fantástico! Agora direita. Primeiro, ok. Segundo…

- Cano, Dona Elisa, cano…

- Ai, Silvio!… Não é possível!

- Pára ou continua?

- Agora não posso mais parar, Silvio! Agora é tudo ou nada.

- Você está certa disso? Vai ter que abrir espaço entre as prateleiras.

- Estou, Silvio. - Claro que eu não estava - Fura!

E o Silvio furou. Um. Tensão. Dois. Fui acabando com minhas unhas. Três. Faltava pouco… quatro! QUATRO!

Não acreditei. Quase chorei, de tanta emoção. O Silvio sorriu, satisfeito, e foi embora, me deixando de prêmio as sonhadas prateleiras branquinhas e, como brinde… oito buracos vazios na parede! Er… Oba. (Tudo em nome de uma cozinha arrumada.)

***

*Nome fictício alterado por preservação e licença poética.

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Monday, November 20, 2006

511

- Elisa, você podia nos ajudar… Não temos mais de onde cortar dinheiro pro orçamento bater. Você não quer ajudar a secretária a organizar os gastos?

Maldita hora que mostrei que eu sabia alguma coisa de matemática. Alguma coisa ainda sendo bem exagerada, porque o fato de eu ter crescido atrás de balcão de farmácia e fazer conta de boteco facilmente não me dá méritos matemáticos nenhum. E eu não podia dizer não.

- Ajudo…

- Pois então. Daqui a pouco eu passo lá pra conferir as contas. Aproveita e imprime pra mim um relatório dos pagamentos dos alunos.

Saí do escritório em direção à sala segurando a boca. “Eu não sou paga pra isso. Aliás, onde está meu pagamento depois de 10 dias de atraso?” quase saiu. Mas não custa tanto ajudar a secretária. Uma prestação de contas simples, oras. Entrou tanto, saiu tanto, défict/saldo de tanto. Pronto.

E isso realmente foi tranquilo. Sentamos, lado a lado, e em poucos minutos a prestação de contas estava pronta e funcionando. O dinheiro xis tá pra entrar e vai quitar as contas ypsilon, o que vai deixar tudo no azul até terça. E assim foi explicado pra ela quando entrou na sala e perguntou tudo.

- Não! Calma, Elisa! Deixa eu entender. Entrou xis. Entrou mais ypsilom. E mais zê. Isso dá quanto?

- Isso dá dábliw, Fulana.

- Péra, Elisa! Mas e o dinheiro xis?

- Tá aqui. Você já somou.

- Não!… ah, tá. E o ypsilon?

A secretária olhou pra minha cara com aquele ar de tá-vendo-pelo-quê-eu-passo?

- Tá aqui, fulana. Já foi somado.

- Hum. E isso deu quanto?

- Dábliw.

- Tá. E o que foi pago com esse ypsilon, especificamente?

- Como assim?

- Quais contas que foram pagas com esse ypsilon.

- Isso não faz diferença. A soma dos dinheiros foi usada pra pagar as contas alfa, beta…

- Calma, Elisa! Eu tenho que pensar! Tem que saber esse dinheiro aqui - esse ypsilon - onde foi gasto!

Meu sangue foi subindo. Como assim “Calma, Elisa!”? Não era pra gente explicar?

- Foi pago o aluguel, o condomínio e o gás, Dona Fulana. - interrompeu a secretária.

- Ah. Sim. Então soma com o alfa mais o beta…

- Não, Fulana - interrompi - isso é valor de saída, não soma com o de entrada.

- Soma sim! Calma, Elisa! Não vê que eu preciso pensar? Esse ypsilon somado com o alfa mais o xis mais do beta…

Calma, Elisa? Já não tava calma.

- …e o valor vai dar pi. Cadê esse pi? Onde foi parar todo esse dinheiro?

- A conta não funciona se for feita assim, Fulana…

- Não! Calma, Elisa!…

POW! Dei um murro no teclaro. Ela me olhou assustada, inclinando o corpo pra trás. A secretária segurou o riso, meio nervoso meio de graça.

- Pra quê diabos você pediu pra gente mexer nessas porra se você não quer ouvir? Será que dá pra calar a boca e prestar atenção, sua velha maluca?!

A secretária gelou. E a Fulana me olhou horrorizada.

Já tava me preparando pra levantar e sair quando ela desmontou. E caiu numa gargalhada tão profunda que começou a me dar medo. A secretária, sorrindo sem graça, não sabia se olhava pra mim ou pra Dona Fulana. Até que ela me olhou fundo no olho. Séria.

- Fan-tás-ti-co, Elisa! Achei, por segundos, que você estava me dando bronca, acredita!? - e saiu, leve, rindo, levando a secretária a tira-colo, naturalmente sorridentes.

Minha boca demorou um pouco a fechar. Mas como todo mundo começou a agir como se nada tivesse acontecido eu fui obrigada a me curar do choque. Porque pra conviver com maluco tem que aceitar. Ou sera que…?

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Tuesday, November 14, 2006

510

Neste final de semana, em Arraial do Cabo (RJ), me deparei com um símbolo que encaixa certinho com meu agora…
Posted by Lili at 11:24:32 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, November 7, 2006

509

Uma semana de cão. Mihões de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Minha vida, definitivamente, não poderia ser normal. Não mesmo.  E não vem ao caso explicar tudo o que aconteceu. Até porque eu tou guardando isso pra um livro. É, foi muita coisa sim. O que importa é que minha vida virou novela. Ou filme do Almodovar - não sei dizer o que é mais bizarro.

Esse final de semana foi o ápice.

Um domingo corrido, compras, mudanças, uma porrada de coisas que então se empilharam na sala. Maratona digna de triatleta. Só parei às 23h. Ou tentei, pelo menos. Quando consegui sentar senti a dor. No peito, atrás do esterno. Ri. Que coisa, dor depois de uma semana dessas. E o ar começou a sumir. Um sufocamento, de repente. Levantei. Andando de um lado pro outro um elefante sentou no meu ombro. E a mistura de tudo virou enjôo.

Julio perguntou o que eu tava sentindo e depois da resposta correu pra internet. Santa internet. E lá leu que tudo isso era sintoma de infarto. Merda de internet. Quis me levar pro hospital. Não vou, bati pezinho. Não mesmo. Eu, com 24 anos, não vou ter um infarto. Não faz sentido. Uma hora depois, o corpo ainda sem responder, tava eu fazendo o primeiro eletrocardiograma da minha vida.

Quase uma hora da manhã tava voltando pra casa com a certeza de que não sou cardíaca, que preciso diminuir o stress e que isso só é possível se eu nascer de novo (desde que da próxima vez me dêem uma vida mais normalzinha, claro).

Posted by Lili at 22:44:08 | Permalink | Comments (11)

Tuesday, October 31, 2006

508

Entrei no ônibus quase vazio e fui direto pro meu lugar. Ficava bem ao lado da escada, não era difícil de encontrar. Poltrona 17, janela. Nunca compro janela mas embarquei no ônibus quase saindo e ele tava vazio, com certeza não precisava me preocupar de ocuparem o lugar ao lado.

Arrumei minha mochila no descanso de pés da poltrona 18, engatilhei o mp3 player, coloquei a água no porta copos. Cinto de segurança afivelado - sabe lá quem está dirigindo esse ônibus - e poltrona reclinada. Tudo ajeitado para viajar, eu achava.

Achava. Até me dar conta que, na poltrona ao lado/frente da minha um carinha mirradinho, esquisito, bobo mesmo, tava bem melhor do que eu: ele tinha um laptop.

Não consegui desgrudar o olho da tela do computador dele um minuto sequer. Não tinha como. Seis horas de viagem com certeza se tornam muito mais divertidas com alguma parafernalha eletrônica. E a dele ainda conectava internet via celular. Chequei seu Orkut, li suas conversas (nada santinhas) no MSN, e troquei meus pedaços de papel impressos dados na sala vip da rodoviária por uma edição atualizada e eletrônica do jornal, onde pude acompanhar a apuração dos votos minuto a minuto.

Apesar da minha relativa cegueira à distância tava indo tudo muito divertido. E aí chegou a parada. E o magrinho desceu do ônibus, deixando o laptop em cima do banco. Ligado. Fiquei olhando praquela geringonça que olhava pra mim, brilhando. Eu olhava pra ela, pra janela, pra ela, pra janela… e nada do mirradinho. Então por que não?

Sorrateiramente pulei pra poltrona 18. Olhei pros lados no corredor. Nada. Mais uma vez janela. E também nada. E o bichinho brilhando pra mim. Deslizei pelo corredor até a poltrona dele, 12, e carinhosamente aninhei o ser iluminado no meu colo, feliz com a possibilidade de checar meu email depois de três dias sem internet ou mesmo de postar depois de mais de uma semana sem tempo pra nada. Abri o navegador, página do Gmail, nome de login. Ao mesmo tempo outro navegador (coisas de quem usa Firefox) e blog, login. E quando tava abrindo o terceiro navegador, pau. Pau. E pânico. Um bicho iluminado em coma no meu colo. Dei control alt del, apertei tudo quanto foi tecla e pau. O bicho não se movia, autista.

O desesperto foi crescendo conforme notei o magrelinho voltando pela plataforma comprida. E o brilho autista não falava comigo. E então resolvi tomar uma atitude drástica: fechei o bicho e botei no banco. Era isso aí. Nada a fazer a não ser fingir que eu nunca tinha sido chamada pela luz. E corri de volta pra 17.

O magrelo entrou logo em seguida. Segundos. Eu com o fone no ouvido fingia distração. Ele tirou o computador da poltrona pra sentar - e mal se deu conta quando, com a saculejada da manobra do ônibus, deixou o dito cair. No banco, pro alívio dele. Mas desconectando a bateria, pro alívio meu.

Enfiei o earphone bem fundo na orelha depois. E me cobri quase toda com o cobertor. Melhor não correr riscos. Essa coisa de abdução por luz é um troço sério, pode apostar.

Posted by Lili at 00:13:49 | Permalink | Comments (18)

Sunday, October 22, 2006

507

Eu tou sumida sim. É que peguei o ônibus errado e dormi, sem querer. Agora tou numa rua que eu nem sei bem qual o nome e ainda não descobri como se volta daqui. Vou ver se alguém sabe. Péra aí.
Posted by Lili at 14:25:18 | Permalink | Comments (14)

Monday, October 16, 2006

506

Me mudei pro Rio em 2000. E meu primeiro endereço na cidade maravilhosa foi a (para mim) desconhecida Rua Prado Júnior. Para mim, eu disse. Porque no Rio ela é conhecidíssima. É o point. Movimentadíssima, 24 horas por dia. Com suas meninas pelas esquinas.

Eu morava no quarto andar de um prédio familiar, com quatro velhinhos espanhóis. Estranho, eu sei, mas isso é história pra outro post. Morava no quarto andar e quando chegava o final de tarde me posicionava na janela da sala pra assistir a um espetáculo que só Copacabana é capaz de proporcionar a uma pessoa de forma tão natural. Às seis da tarde, mais ou menos, numa quitinete no prédio em frente, três travestis se arrumavam todos os dias para o turno. Penteavam perucas, apertavam o espartilho umas das outras. Na rua, as meninas começavam a chegar. As das seis sempre mais light, menos chamativas. Depois o negócio esquentava e as saias diminuiam - quando existiam. E quando os gatos ficavam pardos as boates da rua abriam. Tudo muito curioso pra uma garota da plácida periferia.

Foi por isso que eu me ofereci para acompanhar uma amiga quando ela contou que ia numa dessas boates, fazer um laboratório. Ela vai fazer um longa, vai interpretar uma puta, e vai gravar na maior, na mais bonita, a da esquina, a que era mais visível da minha janela e a que eu tinha mais curiosidade de entrar.

E fomos. Segunda à noite. Casa não muito cheia, mas muitos gringos. O preço da entrada dá o tom da casa: tudo bem arrumado, cara de restaurante de hotel de luxo, garçons de terno, lanterninha pra chegar até a mesa na boca do palco. Nós duas e um amigo preocupado, que nos deu “normas de segurança” antes de sairmos de casa.

Da mesinha em frente ao palco podíamos ver a casa quase toda. E as meninas dançando. Bonitas, bem arrumadas, sorridentes. Uma delas tinha cabelo de novela. Ficamos cogitando quanto tempo ela tinha passado no salão à tarde. Conversamos com algumas delas. Quando explicávamos nossa empreitada elas sorriam e se abriam. Diziam até o nome verdadeiro. Sempre simpáticas, tentando tirar daquele trio inusitado o divertimento da noite de trabalho duro. Me puxaram pra sambar no palco, dançaram pra nós no show de strip tease.

Foi quando me dei conta da falta do meu celular. Onde? Levantamos, olhamos em baixo da mesa. Tudo muito escuro. Olha no banheiro, sugeriu minha amiga. Fui e nada. Vou chamar o lanterninha, disse quando voltei à mesa, e segui pro bar, atravessando o salão.

Expliquei pro leão-de-chácara da porta o ocorrido e ele pediu que eu esperasse que um lanterninha me acompanharia até lá. Foi quando senti a mão no meu ombro.

- Oi gracinha.

Virei e vi um cara, nem velho nem moço, nem feio nem bonito, nem bêbado nem sóbrio. Ligeiramente insosso.

- Oi.

- É a primeira vez que te vejo aqui.

- É porque é minha primeira vez aqui.

- Notei. Vamos comemorar a sua estréia? Tem desconto de lançamento?

Acho que minha cara de interrogação foi muito forte, porque a expressão dele mudou também.

- Olha, acho que tá rolando um engano. É só me olhar direito… - e eu olhei em volta e me dei conta que, não só elas não eram estereotipadas, como se vestiam melhor do que eu. Jeans, blusinha, sandália de salto. Só que nelas, de marca - … e vai ver que eu já tou com cliente. Aquele casal ali, querido.

Apontei pros meu amigos, que se dividiam em assistir ao show e procurar meu celular, sem ter idéia de que, em segundos, tinham virado meus clientes.

O rapaz olhou pra eles, fez cara de insosso de novo.

- Então a gente comemora a reinauguração amanhã. - E saiu atrás de uma mulatona.

Quando o lanterninha chegou eu até já tinha esquecido o que eu tinha ido pedir. Rodamos a mesa mas não encontramos o celular, que só foi localizado depois, no chão do carro.

Na saída da casa o insosso botou a mão no meu ombro de novo.

- Até amanhã.

Contrariei uma das regras de segurança e sorri. E ele deve ter me esperado.

Posted by Lili at 14:02:26 | Permalink | Comments (12)

Sunday, October 1, 2006

505

Quando voltava do CIEP, aqui do ladinho de casa, onde fui justificar meu voto, passou um menino vestido de Sr. Incrível de mãos dadas com a mãe, apontando pro chão e perguntando: “E o que é tudo isso espalhado na rua?”. Passei antes de ouvir a mãe completar a frase “Ah, meu filho, isso é…”. Lixo eleitoral? Falta de vergonha na cara? Publicidade ilegal em dia de eleição?

Parei antes de chegar na esquina. Olhei em volta e eram muitos papéizinhos de candidatos. Um em especial. Arraes. Alexandre Arraes. Comecei a pegar os “santinhos”. Foi quando notei que eram muitos mesmo, não daria pra recolhê-los todos nas mãos. Corri pra casa, voltei pra calçada com um saco de lixo. Recolhi, um por um, os santinhos na minha rua. Depois separei os do Arraes - a grande maioria. Enfiei o saco na mala de um dos táxis do ponto em frente do meu prédio. “Pro comitê desse moço aqui, ó!”, apontei o papel pro motorista.

Lá, uma festa. Pessoas comemorando a boa campanha de Arraes. Entrei sem ser notada. Fui até a mesa da secretária sem ser notada. Anotei o endereço da casa do homem que estava em uma agenda sem ser notada. E saí, de volta ao meu taxi, rumo à residência daquele senhor candidato tão festeiro.

Na portaria do prédio dei a sorte de alguém estar saindo quando eu queria entrar. Sorte, porque não precisei ser anunciada. Subi no elevador com o saco de lixo nas costas e da mesma forma toquei a campainha.

Me atendeu à porta um homem sorridente, de pulover, com um telefone na mão.

- Seu Arraes? Alexandre Arraes?

- Sou eu. - Confirmou sorrindo com um ar de estranhamento.

- Dá licença.

Entrei em sua sala onde sua família e seus assessores riam, comemorando a ótima campanha. Me olharam curiosos e, alguns segundos depois perplexos, enquanto eu rasgava o saco e jogava todos aqueles santinhos sujos de rua pro ar charmoso de sua residência.

- Obrigada. - Disse, saindo, enquanto todos me observavam imóveis.

Voltei pro meu taxi, pra minha rua agora limpa, pra minha casa.

Alguém tem que fazer o trabalho sujo, fazer o quê.

***

*Esta é uma obra de semi-ficção: grande parte dos momentos descritos acima não são reais.

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